Um estudo sobre a liberdade

Um exame sobre a Liberdade.
Tereza Erthal
Certamente nós nos experimentamos, e aos outros, como livres, organizando os nossos sentimentos e os nossos negócios segundo esta noção. Todo comportamento voluntário decorre disso, assim também como o conceito de espontaneidade. Se pensamos em casar e ter filhos, ou em escolhas menores como erguer um braço, temos a sensação que depende de nós o que queremos fazer. Em todos os casos, temos a sensação de termos decidido livremente e que devemos aceitar a responsabilidade por estas escolhas e decisões. Elogios e culpas são distribuídos de acordo com elas. Contudo, tais experiências de liberdade estão em briga com argumentos que possamos usar para defendê-las. É bem difícil argumentar racionalmente sobre aquilo que apenas sabemos intuitivamente. Mas, no caso da liberdade e conseqüente responsabilidade, algum tipo de embasamento racional é importante, pelo menos para ordenar nossos relacionamentos sociais.
Relacionamentos sociais estão previstos em lei e estas leis, por sua vez, repousam em nossas melhores teses sobre o que é certo e o que é errado fazer. Se não podemos defender a tese de que somos livres para escolher e responsáveis pelos resultados, capazes de discriminar entre o certo e o errado, agindo conforme esta decisão, estamos sendo fortemente dominados por alguma teoria entrante.
Toda discussão sobre livre arbítrio do homem tem sido encoberta pelo aspecto natureza humana ou pela idéia do lugar da humanidade no Universo. A eficácia, ou não, do nosso querer, e a questão de se de fato temos uma vontade, não são tidas como decorrentes daquilo que somos enquanto seres humanos. No passado, tais discussões corroboravam com o determinismo, indicando que a liberdade era uma ilusão. Os gregos chamavam tal determinismo de destino. Viam-se como bonecos de deuses caprichosos, que determinavam as tramas de suas vidas. (“Que destino cruel trouxe-me a este dever sangrento?”, próprio de uma tragédia grega.) Igualmente, a tradição cristã, especialmente protestante, era convencida de que nossas ações eram prefixadas. Haveria um plano divino por trás de todo o cenário de ações.
“ É portanto fundamentalmente necessário e saudável que os cristãos saibam que Deus prevê, projeta e faz todas as coisa conforme Sua própria imutável, eterna e infalível vontade.”(Lutero, séc.VI)
Se formos honestos conosco, veremos que possuímos resquícios destas influências hoje. Um exemplo disso são frases como: “estava destinado a acontecer”; “acontecerá, se Deus quiser”; etc. A boa notícia é que estas noções de destino exercem pouco domínio racional sobre a mente moderna. Hoje a ciência nos diz sobre a causa das coisas, incluindo sobre o nosso comportamento. Na verdade, a ciência moderna minou nosso sentido de liberdade: pelo lugar que ela nos concede no Universo e pelo modelo dado para compreender nossa natureza humana. No universo morto de Newton, seres conscientes não tem papel para conter as forças cegas. A impotência humana faz nascer a fé cega, com perda da vontade (depressão e desespero). Nossa liberdade perde todo o sentido.
A negação da liberdade, decorrente da natureza impessoal e determinista da física clássica, reflete-se no determinismo histórico de Marx. Há um determinismo imposto de fora, por forças além do nosso controle.
Freud descobriu na psique humana leis e forças que espelham a física e a química de seu tempo.
“Se toda atividade mental é resultado de forças mentais inconscientes que são instintivas, biológicas e físicas em sua origem, então a psicologia humana poderia ser formulada em termos de forças interagentes que eram em princípio quantificáveis, sem necessidade de recorrer a nenhuma ação vital mental integrativa, e a psicologia se tornaria uma ciência natural como a física.” (Freud, em Rycroft; Psychoanalysis Observed,p.13)
Assim, a psique é escrava de forças inconscientes, pois todo ato decisório é uma ilusão e a consciência não tem função. Freud contribuiu para este tipo de pensamento, tanto na psiquiatria, quanto na psicoterapia, deixando uma marca formativa na mente popular.
As idéias de Freud e de Marx, de que nossa liberdade é refém do instinto ou da História, foram propagadas por sociólogos, psicólogos e estudiosos afins. Ora, se procuro definir minha individualidade em termos clássicos, vejo-me como um emaranhado de neurônios, mas nenhum deles pode ser responsabilizado por qualquer ação que venha a desenvolver. Na física clássica fica difícil se quer dizer a palavra “liberdade”. A complexidade da causalidade é tão gigantesca que nem conseguimos sondá-la; ela está sempre presente.
Mas, na nossa visão, é impossível definir o ser humano sem confrontar o significado da liberdade. Se atentarmos para o conteúdo de nossa mente consciente em qualquer momento, assistimos a um arranjo de vários pensamentos possíveis. Estas áreas de pensamento são mais acessíveis ao adormecermos ( ao entrarmos em contato conosco, depois de apagar o murmurinho do mundo, temos imagens do passado ou mesmo do presente, apontando coisas que temos que encarar), ou em estados de meditação, mas estão sempre presentes. Sem elas, não haveria base para fantasia e para imaginação. Cada ato de concentração é um ato de realização do pensamento. Quando focalizamos um pensamento, ele se torna a realidade clássica, ou figura, enquanto outros desaparecem no fundo, como sombra na noite.
Assim, cada ato de concentração expressa alguma forma de liberdade: nada determina sobre quais pensamentos possíveis iremos focalizar, contribuindo para a natureza indeterminada da escolha. Poderiam dizer que a escolha do possível seria determinada pelo alívio de uma situação e, por isso, não livre. Ledo engano. Por exemplo, se me vejo numa situação desconfortável, talvez me pegue pensando nela com a cabeça cheia de imagens sugerindo atos como gritar, quebrar o computador, parar de pensar nisso, etc. Seja qual for a saída, ninguém poderá dizer que a escolha se deu devido ao desconforto, uma vez que todas as opções aliviariam tal sensação.O desconforto pedia apenas uma escolha e esta, em si, foi livre.
Respondendo com bom senso a muitas questões, sendo uma criatura racional, tenho capacidade de analisar as situações e refletir sobre as suas consequências. Tanto minha liberdade quanto minha responsabilidade são vistas como provenientes de tal capacidade, e por isso negamos que os animais tenham livre arbítrio.Mas a liberdade é muito maior do que nossa fé no poder da razão! Temos o exemplo de quem quer parar de fumar: decide, invoca todos os pensamentos que demonstram quanto ruim é o ato para o organismo, mas logo depois o hábito, ou vício, vence a razão. Mas, num belo dia, paro de fumar, sem nenhuma exigência. Escolhi parar. Fiz minha escolha e agi de acordo. Por quê? Nossa lógica não faz escolhas! Poderíamos dizer o contrário: são as nossas escolhas que estão associadas a um conjunto de razões ligadas a estas escolhas, que darão origem à nossa lógica. Ao fazermos uma escolha, temos uma razão para esta escolha que a nossa lógica se utiliza para explicar a escolha. Estas explicações dizem algo a meu respeito, mas não determinam a escolha em si. Precedeu a todos os “porquês”. Foi realizada num momento de liberdade e, como Kierkegaard diria, num “salto de fé”. Tal escolha é de minha responsabilidade apenas e já traz em si um fardo: faz-nos responsáveis por escolhas sobre as quais não temos pleno controle consciente (numa linguagem sartriana, uma consciência de primeiro grau).
Mas nada pode controlar a minha liberdade? Sartre diria que Não: eu sou a minha liberdade! Para exercer o controle da liberdade, pesamos as probabilidades. A probabilidade que algo ocorra está associada à quantidade de energia exigida para fazê-la acontecer. Somos livres para fazer qualquer opção, mas ao fazermos, geralmente escolhemos o mais fácil. Embora a razão não determine a escolha feita, desempenha um bom papel, pois as razões especiais ligadas a qualquer conjunto de escolhas possíveis, influenciam a probabilidade de fazermos alguma escolha em especial. Então, a associação entre razão e escolha torna as escolhas corretas mais fáceis, mas não garante o resultado desejado.
O efeito de nosso estilo de vida, e de nosso histórico de escolhas passadas, também atua sobre o peso da probabilidade futura. Mas isso não significa determinismo, e sim influência. Geralmente, a “natureza” da nossa consciência leva-nos a fazer escolhas que exijam menos esforço e menos concentração. Isso é responsável pela criação de hábitos e imitações. O hábito é uma saída para os preguiçosos, com certeza. Contudo, o habitual também é necessário em nossas vidas. A habituação pode nos deixar livres para viver mais criativamente o que mais nos interessa. Mas somos sempre livres pra realizar escolhas que despendam até mais energia , assim como podemos ir contra as probabilidades.
O exercício da liberdade repousa no cerne do nosso significado enquanto indivíduos. O fardo da responsabilidade é da nossa natureza e nem adianta negá-la. É a nossa liberdade que permitirá a nossa criatividade, chave para que nós, seres humanos, estejamos no Universo.

Existencialismo e a medicação

Existencialismo e medição
Muitos alunos me perguntam como se configura a relação entre a psicoterapia e a medicação. Em primeiro lugar, precisamos deixar claro que nenhum psicólogo está apto para medicar. Este papel é próprio dos médicos, no caso psiquiatras ou neurologistas, que têm um estudo apropriado para isto. Nosso papel é de indicar um destes profissionais, conforme o caso, e estabelecer um diálogo com eles, aumentando a chance de sucesso do atendimento.
Mas quando fazer este tipo de encaminhamento?
Os medicamentos agem na conseqüência comportamental, enquanto a psicoterapia age sobre a relação de construção da doença. Um cliente com síndrome de ansiedade, por exemplo, necessita de um medicamento, caso este sintoma esteja acima do controle da pessoa, atrapalhando ao ponto de não mais conviver socialmente. A terapia vai atuar na forma como a ansiedade acontece e o que a dispara. Alguns falam que a psicoterapia ataca a causa do problema, mas este ponto se torna bem questionável na ótica existencial.
No Existencialismo, vemos, claramente, a diferença entre causa e motivo: enquanto a causa é a apreciação objetiva de uma situação, o que deu origem real ao problema em questão, o motivo é a apreensão subjetiva de uma causa,expressa pelos desejos, emoções, pensamentos que normalmente acompanham o ato. Trata-se de uma apreensão autoconsciente, um projeto inicial de si até um determinado fim. Apreende-se o mundo como causa. Posso apreender uma série de fatores, como a grande quantidade de trabalho, a preocupação excessiva, a fraca alimentação, etc, que são motivos, como causa para a minha fadiga. As causas somente terão significado quando inseridas no projeto de alguém: aparece em e através do projeto de uma ação.
“ Não é por ser livre que os motivos são ineficazes, mas porque eles são ineficazes é que eu sou livre. A consciência é sempre consciência de qualquer coisa e, por consequência, o motivo não pode aparecer senão como correlação de uma consciência de motivo, isto é, o motivo não está nunca na consciência, ele existe apenas pela consciência. E porque o motivo não pode surgir senão como aparição, é que ele se constitui como ineficaz; a sua transcendência está, por natureza, compreendida e incluída na consciência e, sendo assim, a consciência escapa-se-lhe, ao estabelecê-lo.” Jolivet, 1975.
Causa, motivo e fim são indissociáveis da consciência que se projeta até suas possibilidades e se define por elas. Embora possamos dizer que todo ato tenha um motivo, não podemos extrair daí que o motivo seja capaz de causar o ato. Dois eventos fortemente correlacionados não necessariamente estabelecem uma relação causal; estão apenas fortemente associados. Na verdade, o motivo, o ato e o fim são partes de uma mesma estrutura em que cada um objetiva os outros dois. No entanto, é o ato que será capaz de decidir o fim e os motivos, pois o ato é expressão de liberdade. Ao contrário do determinismo, que prega uma certa continuidade da existência, concebendo o motivo como fato psicológico capaz de gerar o ato, da mesma forma que a causa determina o efeito, o Existencialismo não considera causa e motivo como coisas. Ambos são vistos como tendo significado atribuído exclusivamente pela pessoa. Para um fenômeno ter causa é preciso que esta seja experienciada como tal. Este significado depende do projeto futuro. Assim, o indivíduo determina os significados através das ações pelas quais se projeta até seus fins. Sendo o projeto uma livre produção de um fim, e que lhe confere significado. Causa, motivo e fim formam uma unidade difícil de dissociar. Portanto, é bastante difícil dizer que algo seja a real causa de um problema pelo simples fato de que muitas outras variáveis entraram neste curso posteriormente e, muitas vezes, a primeira causa ficou secundária diante da força de alguma destas variáveis. Quando trabalhamos com os motivos, muitas questões se aclaram e uma compreensão maior se torna viável.
Esclarecido este ponto, entramos em contato com a classificação diagnóstica e o Existencialismo. O que seria uma doença mental? Para nós existencialistas, não existe uma teoria geral que seja capaz de explicar a patologia da conduta, pois isso iria contra os princípios filosóficos propostos, a saber, o de que cada indivíduo é uma pessoa concreta, única, livre e realizadora de si mesma; rebelde, portanto, a enquadramentos diagnósticos. Preocupados em ressaltar a dignidade existencial, repudiamos a classificação, já que fragmenta o homem. Estamos mais preocupados em “des-cobrir” o molde sobre o qual o cliente se criou do que lhe impor um padrão. A perspectiva do trabalho é descritiva, uma vez que somente se pode compreender qualquer desordem de conduta de um indivíduo enquanto tal a partir dele mesmo, isto é, tomando-o como unidade fundamental. Mas encarar os problemas como oriundos de conflitos, aspirações, enfim, angústias, decorrentes de necessidades existenciais, é ainda muito difícil de ser aceito. A conscientização de si mesmo não é algo fácil de ser atingido pelo cliente, uma vez que ocasiona uma enorme carga emocional. Quando o peso é grande, é mais fácil obter refúgio em divindades ou na expectativa de que algum destino se faz cumprir.
O problema da classificação psiquiátrica parece residir numa única premissa: existem comportamentos anormais que precisam ser categorizados em prol de um mérito moral. É como se o diagnóstico psiquiátrico definisse a identidade pessoal. Mas classificar algo ou pessoas é próprio da ciência, para obter controle sobre aquilo que é nomeado. Claro que a classificação facilita a linguagem entre profissionais, objetivando a linguagem, favorecendo análises estatísticas e certas previsões de comportamento. Entretanto, considerando que o comportamento humano é algo único, baseado na livre escolha, é um contra senso tentar encaixá-lo em algo pré-existente.
Existe certa lógica em considerar que, de um certo modo, somos um tanto “ insanos”. Basta comparar as nossas ações diárias, no que toca a seu significado, com as atividades de outros no mundo, que nos parecem, às vezes, por demais ridículas. Como se pode ser tão são diante de tanta insanidade? Óbvio que existem aqueles que têm um tipo específico de insanidade, e que por isso a sofrem de um modo diferente daquele experimentado por nós. Parece que eles têm o direito de viver uma existência humana, ainda que de uma perspectiva diferente da nossa. Assim, existe uma noção limitada de insanidade que se antagoniza com a noção de uma insanidade viável.
Não se trata de negar que existem diferentes modos de “ser-no-mundo”, mas o que se questiona é o propósito do ato classificatório que, muitas vezes, leva a uma forma desumana e impossível de lidar com os problemas existenciais do ser. O árbitro teórico é tão amplo e de tantas conseqüências que não é raro se verificar o desenvolvimento de doenças iatrogênicas. Além do mais, quando se fala em doença, tem-se como parâmetro a saúde; e determinar um conceito de saúde parece inútil, quando se tem imaginado a essência do homem como ser não acabado. (Jaspers, 1966)
Os clientes que normalmente visitam nossos consultórios são “normais “, com problemas existenciais, ou neuróticos, apresentando um conjunto de comportamentos aprendidos que serviram diante de uma situação de sufoco, mas que já caducaram. O cliente, neste caso, não se dá conta de que a sua utilidade expirou e continua dando as mesmas respostas a todas as situações ameaçadoras. A neurose é uma espécie de método de conduta desenvolvido para defender a própria existência. Obviamente, a noção da própria existência está distorcida, mas o comportamento resultante está coerente com esta imagem criada. Também os marcos diferenciais são muito difíceis de delimitar, pois cada indivíduo desenvolve uma dinâmica própria. Contudo, existem comportamentos que se mostram bem característicos, exatamente pelo exagero de suas manifestações.
O desajuste é o resultado de uma escolha que o indivíduo faz, produto de sua própria criação. A liberdade para escolher não necessariamente assegura que as escolhas sejam sábias. A desordem da conduta surge como resultado do conflito entre mudar-se (de ser) e a de manter-se inalterado (não ser). A ansiedade resultante faz nascer o desajuste, uma forma que o indivíduo escolheu para lidar com o peso da angústia. May nos diz que a neurose é o método que o indivíduo usa a fim de preservar o seu centro. Pra ele, neurose é uma adaptação, justamente aí que radica o seu “mal”.
Se a conscientização da liberdade, pelo próprio indivíduo, é o que dá significado à vida, todo o uso da neurose como forma de manipulação do meio é um resultado de uma perda do sentido da vida. A terapia pode dar conta deste aspecto, mas das conseqüentes ramificações sintomáticas, o profissional apropriado é o psiquiatra. Uma avaliação diagnóstica pode ser importante para diminuir sintomas, como a ansiedade ou a depressão, que um paciente vive. Uma vez suavizada a sintomatologia, o caminho fica mais aberto para os resultados terapêuticos.
Mas ainda têm os pacientes psicóticos, menos comuns nos consultórios de psicoterapia. Estes requerem um acompanhamento medicamentoso com mais freqüência. Costumo dizer que, nestes pacientes somos mais facilitadores e coadjuvantes do que profissionais principais. Nosso papel seria o de ajudar a socialização ou adaptação social.
Se a nossa preocupação é idiossincrática, nada mais importante do que captá-la para ajudar o cliente a se estruturar. Se a percepção do mundo do “neurótico” está distorcida a ponto de não estar vivendo bem com ele mesmo, o comportamento determinado pela sua percepção será alterado na medida em que se modifica. Um trabalho conjunto com o médico é super necessário, quando há a prescrição medicamentosa. O psiquiatra necessita saber como são os seus projetos, qual a forma de manipular os sintomas, a forma como escolhe lidar com o mundo… Embora tenha recursos para fazer uma boa avaliação, muitas coisas escapam à primeira vista. Trago um exemplo que pode vir a clarificar este ponto:
Fui procurada por uma mulher que vivia em depressão. Tinha acabado de ter um filho e, durante a gravidez não fez uso de nenhum medicamento pra assegurar a saúde do bebê. Estava em ponto de bala! Chorava muito e dizia que não havia se matado por causa do filho. Nada em sua vida estava fora do lugar, mas sentia como se nada fizesse sentido. Formada, não conseguia trabalhar por causa dos seus sintomas. À medida que fomos estreitando o relacionamento clínico, fui percebendo que a sua ansiedade era gigante e, por isso, nada começava, pois não conseguia concluir. Seu diagnóstico tinha sido de depressão, no que eu discordava. Entrei em contato com a psiquiatra e tivemos um ótimo diálogo. Na minha opinião, sentia que era mais um transtorno de ansiedade e que, no pico, resultava numa depressão forte. Sugeri que os remédios fossem dirigidos para a ansiedade, e ela concordou em experimentar. O que tinha demorado meses para melhorar, em um mês tivemos resultado favorável. Claro que a parte medicamentosa, dada pela psiquiatra, foi de suma importância, mas foi através do diálogo entre as partes interessadas que a cura se desenhou. A parceria é extremamente necessária.
Não posso acreditar que um tratamento psicoterápico resulte em sucesso se não houver um diálogo inteligente entre os médicos responsáveis pelo paciente. Este diálogo não precisa ser apenas com o psiquiatra. Tive uma experiência bem interessante:
Uma paciente foi-me indicada para fazer um diagnóstico (eu era professora de psicometria). Seu marido me disse que ela tinha tido surtos e achou melhor trazê-la do sul pra cá e se tratar. Ele era médico cardiologista e viu seus sintomas desta forma. Achou que poderia ser uma espécie de comportamento anti-social também, pois depois que emagreceu muitos quilos, passou a se exibir na pequena cidade, com mini saias, pegando garupas de garotões, etc. Fiz várias entrevistas e apliquei testes que pudessem elucidar tal mistério. Em nenhum momento encontrei qualquer comportamento que indicasse isso. Continuei pesquisando. Encaminhei-a a um amigo psiquiatra pra fazer uma avaliação. Nada encontrou, a não ser comportamentos neuróticos. Pesquisando encontrei que ela havia tomado remédios para a tireóide para poder emagrecer, atingindo a hipófise. O teor do remédio era alto e, como li, os sintomas podiam ser semelhantes a uma crise psicótica. Além do mais, ela estava se comportando como uma adolescente que queria recuperar o tempo perdido ( havia perdido 32 quilos em dois meses!). Em diálogo com o endocrinologista e com o psiquiatra amigo, retiramos os remédios desnecessários e uma psicoterapia teve início, pra fazer a adaptação a esta nova imagem. Apenas um ansiolítico e muitas conversas a fizeram restaurar o equilíbrio.
Do que foi exposto, fica claro que a medicação tem sua importância, que somente pode ser administrada por um médico especialista e que o terapeuta precisa trabalhar em conjunto com o médico que assiste o paciente ( seja ele psiquiatra, neurologista, endocrinologista, ou de outra natureza). Chama-se a isso de abordagem interdisciplinar, super apropriada quando se pensa no paciente como uma pessoa. Desta forma, podemos trabalhar a pessoa como um todo e cada profissional envolvido é capaz de dar a sua contribuição.
Conclusão:
Terapias que buscam a compreensão do indivíduo apoiadas simplesmente no puro arbítrio teórico, fazem um entendimento distorcido, reforçando apenas a sua verdade. A rigidez de seus dogmas implica em rigidez de atitudes e o resultado é a perda da compreensão real do cliente. Um estudo criterioso sobre quem está diante de nós faz-nos contactar com os profissionais que também trabalham o paciente, em algum grau. Pode ser que seja necessário um encaminhamento para amenizar os sintomas que atrapalham a visão da realidade. Mas não basta apenas esta indicação. É necessário que trabalhem juntos em benefício do cliente.

O Amor é a chave.

A ansiedade é uma das características mais habituais da conduta contemporânea. O competitivismo da sobrevivência e os fatores constringentes de uma sociedade eticamente egoísta, impulsionam a insegurança no mundo emocional das pessoas.A disputa de cargos e funções bem remuneradas, a constante aquisição de recursos, a prepotência de governos inescrupulosos, anúncios ameaçadores de doenças ou catástrofes da natureza prenunciando tragédias iminentes, a catalogação de crimes e violências são responsáveis, na maior parte das vezes, pelo medo que invade todos os meios sociais. Estas constantes ameaças conduzem a permanentes medos que defluem as incertezas da vida.
A constante preocupação de parecer vencedor, de responder de forma semelhante aos demais, de ser admirado, desumanizou o ser humano, que , tornando-se um elemento do grupo social, passou a não ter identidade ou individualidade.
Sabemos que a ansiedade tem manifestações e limites naturais, perfeitamente aceitáveis. Contudo, quando se extrapola para os distúrbios respiratórios, sudorese, perturbações gástricas, etc, o clima de ansiedade caminha para a somatização física em graves danos para a vida.
O maior desafio para o homem é o autoconhecimento. Identificar a sua realidade emocional, suas necessidades, suas legítimas aspirações, são fatores importantes a considerar, nem sempre fácil de atingir. O aprofundamento de descobertas íntimas vai alterando a escala de valores e levando a novas significações para a sua luta, contribuindo para a autoconfiança.
A ansiedade trabalha contra a estabilidade do corpo e da emoção. A verdadeira finalidade desta existência corpórea seria uma vivência salutar da oportunidade orgânica, sem o apego mórbido ao corpo, nem o medo de perdê-lo. Mas apegado aos conflitos da competição humana, deixando-se vencer pela acomodação, há um desvio desta finalidade, que se resume na aplicação do tempo para a aquisição dos recursos eternos propiciadores da beleza, paz e perfeição.
O pandemônio gerado pelo excesso de tecnologia e conforto material das classes abastadas, com absoluta indiferença pela humanidade dos guetos e das favelas, em promiscuidade assustadora, revela a falência da cultura e da ética no imediatismo materialista. O abuso da falsa cultura desnaturada, que pretendeu solucionar os problemas humanos, resultou na correria alucinada para lugar nenhum e pela conquista de coisas mortas, incapazes de sanar a ansiedade.
Propalando-se que as conquistas morais fazem parte das instituições vencidas- matrimônio, família, lar- os loucos creem que aplicam, na velha doença das proibições passadas, uma terapêutica ideal. A sociedade atual sofre a terapia desordenada que usou na enfermidade antiga do homem, que ora se revela mais debilitado que antes.
O que fazer? São válidas as lições sobre amor, solidariedade fraternal, compaixão que geram pensamentos otimistas e atitudes mais humanas neste mundo enlouquecido pela ganância. Tais atitudes mais compreensivas, não somente conduzem a uma forma de relação mais tranquila, sem disputas conflitantes do passado ou acomodações coletivistas do presente, como revertem o olhar para a observação e conhecimento de si. Esta aprendizagem favorece uma relação harmônica com o Universo, pois trata-se de uma atitude natural, resgatada neste modus operandi.
É preciso deixar claro que existem dois dias plenos de ansiedade: o ontem e o amanhã. Não existe a menor possibilidade de vivê-la no presente, pois não há necessidade de antecipar ou relembrar situações que a expressam firmemente.
Qualquer comportamento que coage, reprime, viola é adversário da liberdade.A sociedade estabelece que a liberdade é o direito de fazer o que a cada qual apraz, sem dar-se conta de que essa liberação da vontade, termina por interditar o direito dos outros, fomentando as lutas individuais, dos que se sentem impedidos nas violências de grupos e classes, cujos direitos encontram-se dilapidados. Se cada um agir conforme achar melhor, considerando-se liberado, esta atitude trabalha em favor da anarquia, responsável por desmandos sem limites. Aliás, em nome da liberdade, atuam desonestamente os vendedores de paixões ignóbeis, vendendo mercadorias de prazer e loucura.
A liberdade é um direito que se consolida, na razão direta em que o homem se autodescobre e se conscientiza, podendo identificar os próprios valores, que deve aplicar respeitando a natureza e tudo o que nela existe. A agressão ecológica demonstra que o homem, em nome da sua liberdade, destrói, mutila, mata e se mata, por fim, por não saber usá-la como deveria.
nenhuma pressão de fora pode levar à falta de liberdade, quando se consegue ser lúcido e responsável interiormente, portanto, livre. Nela a ansiedade escapa. Diria que a liberdade é uma atitude perante a vida e, assim, só há liberdade quando se ama conscientemente. E no estado do amor, a ansiedade perde a cor.
Concluo, que para a ansiedade constar de níveis sadios, a liberdade é imprescindível e o Amor é a chave para abrir esta porta.

Perspectiva Humanista do Amor
Tereza Erthal

Numa visão humanista, podemos admitir que o amor é uma escolha e um processo de transformação constante. O objetivo, como ser, é o amor universal, uma vez que o amor não pode ser excludente. Seu crescimento implica em sua abrangência. O amor por uma pessoa é capaz de despertar o amor por toda a humanidade. Mas, por outro lado, pode não passar de um mimo narcísico para os amantes. Em face disso, a filosofia medieval interpretava o sentido de totalidade amorosa como Deus. Dizia que amar alguém é amar uma pessoa em Deus. Fazia-se uma distinção entre o amor que se encerra em uma criatura e o amor como experiência totalizante- amar alguém como um elo inclusivo com todos os seres:
“ O amor a uma pessoa difere do amor a uma simples coisa. Amamos as coisas em atenção à nossa própria pessoa, a cujo serviço elas perdem a sua existência, como se sucede com uma iguaria que se ama e se consome…O amor puro, sincero e generoso a um ser pessoal, ao contrário, visa a pessoa como tal e a si mesma. O que não quer dizer que a caridade ( o amor de Deus) não atenda também ao seu próprio bem.
Amar sinceramente a outrem significa amá-lo como a nós mesmos, o que só é possível num plano de igualdade…”(Boehner, P. e Gilson,E. História da filosofia cristã.Ed. Vozes, 1991, p.189)
Se quisermos dizer que o amor enquanto relação amorosa é um crescimento de mãos dadas, precisamos completar tal sentença dizendo que isso pode ocorrer, mas a partir, igualmente, do desenvolvimento concomitante das singularidades. Duas pessoas não vão crescer da mesma forma e ao mesmo tempo. É necessário aceitar que cada uma delas está se comportando como pode naquele momento. É a sua jornada pessoal. Pessoa é um ser singular e um ser de relações, ao mesmo tempo. As relações são tecidas com o outro, com o mundo, com o meio ambiente, e, não raras vezes, com o que se intenciona com uma dimensão transpessoal, se a pessoa desenvolve uma experiência religiosa. Mas também o ser das relações remete à autorrelação, à relação consigo mesmo, ao diálogo da intuição com o pensar, do pensar com o sentir, do sentir com o desejo,… são como veias que correm em várias direções, que se integram como uma “gestalt”.
Na verdade, viver no amor é o maior desafio da vida. O amor não pode deixar de atuar até mesmo na ausência de um objeto, visando o distante, tornando-se uma espécie de nostalgia ou saudade do amor.
O amor precisa de liberdade para crescer- não de arbítrio, mas da responsabilidade implicada em cada escolha que envolve não só o eu como o outro, todo o tempo. Justamente por isso, não existe um amor certo como modelo único, mas muitas formas de amar. Através do autoconhecimento e do conhecimento do outro, o que não é feito por livros ou manuais de educação sentimental, mas forjadas pelas vias da própria existência, de uma afinação sensível que envolve EU-TU, descobre-se que o amor é algo construído na intersubjetividade e que na experiência amorosa há uma equalização do “ama ao próximo como a ti mesmo”, ou, o que dá no mesmo, amar a si mesmo é a condição de ´possibilidade de um amor ao outro.
“ Em suma, para termos amor próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor- a negação do status de objeto digno de amor- alimenta a auto aversão.O amor próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros.” ( Bauman,p.100)
Estamos em algum lugar entre o conhecimento de si e a abertura para a inclusão do outro, entre amor ao outro e a autoestima. Na verdade, a existência implica ambos os pólos, sem solução de continuidade; por isso a formulação interessante de Buber, Eu-Tu, ser bastante boa pra ser incluída nesta relação. O amor pode ser considerado uma atitude que propõe a cada pessoa um salto qualitativo, em que não mais se vê enredada por uma lógica utilitária, em que ambos se consomem mutuamente, numa roda de embates regados pelo desejo de posse, cujo resultado é o visível tédio existencial. Desejo é amor da personalidade; conhecimento é amor pela verdade.
O amor é uma responsabilidade que temos para com o outro e é nisso que consiste a igualdade daqueles que amam. Não se trata de anulação das diferenças, mas uma afirmação de alteridade. Há um trecho da peça de Sartre, As Moscas, bastante oportuna para o que estou relatando. Aqui está a resposta de Orestes à Electra ( quando a irmã estima que o coração de Orestes é sem ódio), que dá a pensar, pois acreditamos que atinge algo de originário, lançando ao mesmo tempo luz e sombra no mistério que ronda a gênese do amor. Respondeu o herói: “Dizes bem: Sem ódio; e sem amor. Tu, eu teria podido amar. Teria podido…Mas quê? Para amar, para odiar, é preciso se dar.”

PESSOAS-APARÊNCIA: O MEDO DE SER
Tereza Erthal

Nos dias atuais, somos freqüentados por uma carência de uma consciência idealista, isto é, aquela que predomina sobre os impulsos egoístas que andam de mãos dadas com o imediatismo. “Se ganho o meu, dane-se o outro.”; “Se posso me livrar pagando ao guarda, só desta vez, é menos trabalho e não vou fazer mais.”; expressam como o imediato entrou e se apossou de todos. Como é difícil realizar a liberdade desta forma! É necessário um adequado conhecimento interior do homem.
Distraído com o mundo fenomênico, este homem se desconhece e ignora as próprias reações emocionais, sempre imprevisíveis, e quando os problemas o visitam, responde alternadamente com violência ou depressão. Não consegue controlar-se frente às barreiras, e o anseio de ser livre, transforma-se em conquista vazia.
A liberdade não é conseguida de um momento para o outro; barreiras são necessárias, pois a liberdade é justamente a ultrapassagem destes obstáculos. Também não é possível dizer que a herdamos de nossos pais. Esta é uma conquista lenta, de cada um. Tem início com a escolha de si próprio. Aos poucos vai se aventurando a opções mais audaciosas, inclusive “guiando” aqueles mais perdidos, simplesmente com as suas atitudes. Pouco a pouco, as aparências sociais vão sendo descartadas dando lugar à legítima identidade e o homem se torna o que realmente é.
Muitos, contudo, ficam empacados no medo de serem descobertos em suas paixões exclusivistas, seus medos freqüentes, etc. A coragem é confundida com a impulsividade e a força com o poder, justamente porque vivem sem liberdade e debocham dos homens livres. Mas é na consciência profunda que está inserida a verdadeira liberdade, alcançada pelo mergulho no ser, propiciador de autoconhecimento.
Na verdade, o homem é livre e nasceu pra exercer e preservar este estado. Podemos dizer que não existe limite para a conquista desta liberdade, embora existam os que se recusam a se apoderar dela e preferem desistir de viver. A anarquia se disfarça em liberdade, demonstrando a violência ou a conformidade, abafando o relacionamento saudável entre as pessoas. Os verdadeiros sentimentos são camuflados para que a boa imagem surja nesta competição frenética. Vazios, sem ideais e sem consciência ética, ficam presos a desejos que jamais se satisfazem.
É preciso reverter todo este sistema injusto que desgasta o homem por simplesmente valorizá-lo pelo que tem e não pelo que de fato é. No atual sistema, adquire-se para acompanhar a moda, e a ansiedade para ser bem aceito socialmente aumenta. Cobra-se estar bem informado, conhecendo vários temas sem a menor profundidade, transtornando seu equilíbrio emocional, originando uma desestruturação pessoal.
Estamos sim na época de pessoas-aparência: quase todos num contexto confuso e sem liberdade, sem rumo e desmotivados. Ocupados com as suas conquistas externas, desconhecem, e temem, a verticalidade da interiorização realmente libertadora. Desistindo de reagir, desenvolve fobias, atormentando-os. É aí que a liberdade perde o significado externo, uma espécie de prisão sem paredes. Até mesmo os sucessos profissionais, ou familiares, não conseguem reduzir o desequilíbrio. Não há finalidade que justifique a consecução das metas.
Estados fóbicos desgastam e levam à depressão profunda. Generalizando este estado, pouco a pouco surge a fobia social, e com ela a pessoa desativa os seus convívios sociais, retraindo-se mais. A ansiedade foge ao controle, tornando-se patológica. A fobia social o incapacita a realizar simples tarefas: assinar um cheque diante de alguém, comer em um restaurante, ou mesmo apenas ir até a esquina de casa. Sempre achando que está sobre severa observação dos demais, passa a abominar a presença do outro. A tendência natural é fugir de tudo e de todos, tendo a ansiedade e o medo como justificativas.
Contudo, a vida de relação com os demais é essencial para o progresso. Como formou uma imagem inferiorizada, incapacitada de si, um círculo vicioso se forma. Ausente a segurança afetiva, vê no amigo o possível inimigo de amanhã. Mas mantém a farsa de uma conduta artificial na qual se apresenta muito bem, aparentemente capazes de enfrentar riscos. O abismo entre o que demonstram e o que são realmente, gera o pavor de serem vencidos, desconsiderados, o que justifica o comportamento de fuga constante.
O homem cava o seu próprio abismo quando se submete as ilusões; conspirando sobre ele próprio, torna esta geração do medo, uma sociedade sem destino. A saída é a troca de olhar: olhar pra dentro de si, buscando aprender a se ver sem os julgamentos externos e distorcidos de uma sociedade insana. Descobrindo que é o senhor de seu destino e que pode traçá-lo pouco a pouco, fiel ao que realmente sente, vai construindo uma auto- estima saudável. A liberdade volta a ser possível, um direito de todos nós!

Da queda ao vôo próprio.

de Tereza Erthal

Era uma menina livre, sem barreiras mentais ou emocionais. Vivia de bem com a vida, acreditando que todos sentiam o mesmo que ela. Muito espontânea, se lançava ao mundo, sem qualquer resquício de medo. Este é o retrato de Tininha, uma menina linda, esperta e vibrante. Mas existia um problema: o mundo!

Esta é a história deste pequeno ser que, quando se deu conta do mundo em que caiu, começou a perder a sua liberdade.

“Tininha, leve sua irmã até o carro!”
“Mas pai, ela é maior e mais velha que eu, por que preciso cuidar dela sempre?”
“Porque eu estou mandando!”

Este é um exemplo de um diálogo com o pai, um homem autoritário e não muito afetivo. A mãe parecia ser mais amiga e afetiva, mas precisava se ocupar muito com as suas tarefas diárias, não sobrando tempo pra apreciar o mundo mágico de Tininha, afinal, era perda de tempo.

“Mãe, olhe que dia lindo e ensolarado! Venha pegar um sol no rosto e ver os pássaros cantando!”
“ Tininha, você não está vendo que estou ocupada fazendo o almoço? Não tenho tempo pra ver passarinhos! Ainda tenho que ir ao banco, fazer compras, etc.Ufa! Meu dia está cheio de obrigações e você vem com essa história de dia ensolarado! Assiste você a este espetáculo enquanto é criança e pode!”, dizia a mãe, cheia de tarefas e compromissos que a tornavam uma pessoa amarga.
Tininha a tudo questionava, mas seu critério era o que sentia no peito, isto é, dizia que era um pulsar que sempre apontava a direção a seguir. Costumava agir permitindo que tudo pudesse fluir sem a desastrosa interferência da sua mente, embora não soubesse ao certo como descrever isso. Evidentemente, ouvia todo tipo de piada por isso, mas era um critério infalível! Tinha uma forma fácil de se relacionar com as pessoas e se lançava no mundo, sem ressalvas. Pode-se dizer que era feliz, mas isso iria durar pouco, pois tudo que é ignorado, mais cedo ou mais tarde, morre, desaparece.
As crianças funcionam através da essência, ou pureza, enquanto não tem uma personalidade formada. Tal essência apresenta-se inoperante no adulto, que nem se apercebe disso. Sendo puras, confiam plenamente na fluidez que as conduz, sem tentar entender, já que todas as ações mentais surgem depois com a “lógica” dos adultos.
Na escola, Tininha sofreu todos os tipos de pressão por ser muito espontânea. Castigos, suspensões e bilhetinhos pros pais, eram comuns, embora ela fosse uma aluna exemplar, do ponto de vista acadêmico. Era por demais inclusiva e sempre dividia tudo o que tinha, não evitando dar tudo o que tivesse, se necessário fosse. Vivia a fantasia de um dia criar uma cidadezinha capaz de abrigar a todos aqueles que vissem a vida como ela. Claro que isso era devido ao fato de Tininha nunca ter se sentido incluída em nada, por ninguém. Estranhava o fato de que as pessoas que mais ajudava, eram aquelas que logo a seguir lhe traíam. Não conseguia entender (neste estágio da vida, ela já usava mais a mente) o que acontecia. Como uma pessoa pede ajuda e, depois de recebê-la, ataca quem lhe deu a mão? Embora questionasse, não entrava em embates, apenas vivenciava, pois, de alguma forma, sabia que quanto mais combatia, mais estimulava o fato.
Tininha assim caminhava: questionando tudo e, agora, também a si mesma. Se todos a apontavam como estranha e diferente, e a faziam pagar um enorme preço pra ser aceita, sentia-se sem valor e, consequentemente, começou a mudar. Tornou-se, com o tempo, alguém apegada, crítica, insegura e com dificuldades intelectuais. O medo se apossou deste ser, como uma consequência das crenças e da ignorância de si. Encarnou o papel oposto ao que viera experienciar.
Na sua fase adolescente, e já cheia de papéis aprendidos pela vida, Tininha começou a se lançar nas relações afetivas. Os meninos a disputavam, mas ela nem sequer percebia que era admirada. As amigas, embora soubessem deste lado atrativo de Tininha, não a alarmavam para não terem que entrar na disputa com ela. Ao contrário, diziam que os meninos não a olhavam e assim garantiam algum olhar pra si mesmas. Com isto, Tininha foi perdendo o contato com a sua imagem corporal, com a sua capacidade de atrair pessoas, mas, acima de tudo, com a fé em si mesma. Quem pede amor, não recebe ou tem amor; é preciso sê-lo! Mas Tininha não se lembrava mais disso!
Tininha era filha caçula, mas suas responsabilidades a colocavam na posição da mais velha das irmãs. Sempre muito estudiosa e responsável com as suas coisas e pessoas, era-lhe cobrado um comportamento protetor para com a irmã que, por sua vez, exibia uma conduta passiva e despreparada com a vida. Sempre achava que sua irmã deveria ser uma boa amiga com quem pudesse dividir tudo. Tentou fazer algumas amigas de irmãs, mas sempre “apanhava” a seguir. Foi criando um autoconceito diminuído e se lançava apenas aos estudos, com confiança e amor. Escrevia solitariamente, porém, nestes instantes, era feliz. Sua mãe demonstrava um certo ciúme da admiração que seu pai nutria, silenciosamente, por ela e aí passava a proteger a outra filha (ou a si mesma). Uma espécie de alinhamento com uma pessoa considerada “ normal” e compatível com as suas características.
Tininha teve muitos namorados, nenhum excedendo o tempo de dois meses. Nada percebia nisso, mas desenvolveu uma barreira protetora que a impedia de se envolver muito e, assim, abandonava antes que fosse abandonada. Exibiu quantidades; esqueceu a qualidade!
Estudiosa do jeito que era, não teve dificuldade em adquirir uma vaga em uma universidade importante na sua cidade. Os estudos sempre foram o seu grande trunfo e uma espécie de porta para a liberdade, segundo ela. Era ansiosa para descobrir o mundo e queria aprender tudo o que pudesse alcançar. Em tudo o que se metia, deixava a sua própria marca, como se quisesse se convencer de que era alguém importante também. Ledo engano! Tininha nunca se convencia e precisava fazer cada vez mais. Óbvio que este comportamento a ajudou de muitas formas, mas a afastou de sua essência linda e espontânea. Não era mais aquela menina feliz e livre, mas uma mocinha insegura, carente e medrosa. Sua coragem não ultrapassava o mundo inserido nos livros!
Formou-se com louvor e já começou bem a sua profissão. Escolheu cursar Pedagogia para trabalhar com crianças carentes e, mais tarde, com crianças superdotadas, incompreendidas pelos demais. Foi aí que começou uma nova fase. Mas precisa ser dito que, também aí, iniciaram suas buscas pela espiritualidade. Sabia separar a psicologia da religiosidade, mas não sabia usá-las para alcançar o verdadeiro conhecimento de si mesma. Buscava muito! Acreditava que um dia encontraria uma boa explicação pra tudo o que vivera e uma saída para todos os seus sofrimentos. E já que a Pedagogia lhe trouxe algo, talvez a espiritualidade trouxesse o resto, afinal era o que pregavam. Arrumou mais uma expectativa, sem ter se dado conta disso.
Sentia-se muito só e queria encontrar seu príncipe. Isto mesmo, era um príncipe que imaginava! Alguém que lhe retiraria da prisão onde se encontrava. Muito exigente, nenhum candidato parecia preencher seus requisitos e o resultado era a frustração.Tinha intenções, projetadas no mundo, mas nunca conseguia realizá-las, de fato. Rodou por todas as religiões, conheceu mestres, fez iniciações, muitos cursos e só o que conseguia era se arruinar ainda mais. Estava de mal com deus e decidiu abandoná-lo e a tudo que a ele se relacionava. Voltou-se pro trabalho mais fortemente e fez mais uma marca: tornou-se a maior especialista no assunto que estudava. Era chamada para palestras no seu país, e fora dele, com muita frequência. Mas o vazio era grande e toda esta plateia, que lhe admirava, não era capaz de lhe trazer conforto, ou alegria.
Depois de muito buscar, desiludida com a vida que escolhera viver, decidiu mudar tudo: de trabalho, de cidade, de país. Sabia que para o novo surgir, o velho tinha que morrer! Foi encontrar a sua melhor amiga dos últimos tempos. Foi um encontro feliz, embora assustador. Aquela menina destemida e desbravadora já não habitava mais aquele corpinho mais velho e condicionado. Muitas crenças se formaram e bloqueavam a verdadeira visão que poderia ter de si.
Sua amiga Nina lhe apresentou uns autores diferentes que estudava, filósofos e psicólogos existenciais, que traziam conteúdos interessantes. Fazia o confronto com o que a pessoa fazia de si mesma. Ensinava a liberdade de ser e as responsabilidades de suas escolhas. Falava de auto estima, da angústia de lidar com as nossas mazelas, mas necessária ao crescimento. Era algo muito assustador e, ao mesmo tempo, verdadeiro. Por que verdadeiro pra ela? Porque resgatou aquele “pulsar” no peito, que agora sabia que era vibração. Tudo começou a vibrar e sabia que era a escolha certa a fazer, mas e o medo? Não apenas devorou tudo o que podia, como foi procurar um dos autores para desenvolver o processo terapêutico. Entrou em contato com as suas crenças: familiar, educacional, profissão, religião, política, tradições, dualidades…Pra uma menina que se conheceu livre, entrar em contato com esta realidade aprisionante a abateu. Ler autores mostrando o que distorcemos e porque o fazemos, era maravilhoso,mas difícil de encarar. A terapia a ajudaria nesta tarefa. Tinha se aguarrado à espiritualidade como resposta externa à tudo, e agora via que era mais uma ilusão que semearam dentro dela. A constatação de que fora livre e que deixou de ser devido a tudo a que foi submetida, a fazia viver na sofreguidão. A boa nova era que tal liberdade podia ser resgatada e estava ansiosa por isso.Na continuidade das leituras, descobriu que, apesar da dor, era necessário encarar todas as suas construções. Ainda sem acreditar muito em si mesma, decidiu mergulhar. Sentia-se aceita incondicionalmente pela sua terapeuta e decidiu arriscar.
Geralmente, o medo de voar, a insegurança de dar um passo para a sua liberdade, a dúvida se a própria autonomia é possível e a fará feliz, surgem com frequência nos pensamentos. Mas é preciso experimentar e não apenas intencionar!
Um desconforto insuportável lhe visitava sempre. Vômitos, dores no corpo, fortes dores intestinais eram alguns dos sintomas mais frequentes, de quem estava visitando áreas antes ocultas pela má fé que exercia sobre si.

“Desordem espaço temporal, desinteresse externo, muito silêncio. Meu ouvido apita e ouço a vibração do meu peito. Nestes momentos, nenhum pensamento me invade ou patina na minha cabeça. É muito bom porque vivo instantes de paz. Será que esta é a porta pela qual preciso entrar e me estabelecer?” comentou ela com seu psicoterapeuta.

Tudo isso se apresentou a ela porque se deu conta de que aprendera a viver com o olhar pra fora de si, buscando conhecimento e verdade de outros, ou outra forma de preenchimento do vazio, que sentia desde menina. Viu que para olhar na direção certa, tinha que se auto observar bem, isto é, registrar tudo, sem críticas ou julgamentos. Experimentou! Foi aos poucos permitindo que sua vida lhe levasse e isso se deu porque ficou consciente do seu auto funcionamento. O olhar de antes estava fora dela, se perdendo nas preocupações deste mundo. Acumulou tantas crenças que já não sabia mais quem era.
Tomar consciência de todas as crenças que adotou ao longo da sua vida não era difícil; difícil era olhar pra elas sem qualquer “pré-conceito”. Ter percepção sobre qualquer coisa não significa que esta coisa mude; é preciso tomar consciência plena e experienciar. Tininha foi aprendendo que tinha que se comprometer com a prática, ou seja, transformando-a em seu hábito diário. Na verdade, aquele que se permite voar, reconhece a sua realidade e segue a fluidez do instante. Contempla e curte a viagem da vida. Esta era a grande aprendizagem desta menina grande.

“ Na profunda observação de mim mesma, percebo que todo o fenômeno que surge se desintegra ao ser observado. Nada é necessário fazer, a não ser experienciar. Enxerga-se a partir de dentro da experiência, onde o pensamento é transcendido e perde o poder de conduzir. E neste momento, tudo se encaixa. Esta tem sido a minha mudança de olhar sobre tudo, especialmente sobre a minha pessoa.”, expressou em uma de suas sessões.

O processo de desconstrução havia começado e Tininha, ainda que com um bom conhecimento do ser humano, pelo seu trabalho e estudo, não podia se dar conta de que as crenças aderem como máscaras no rosto e, ao serem retiradas, a face sangra e dói. Sangrou! Temeu e tremeu! mas não deixou de se auto observar. Era uma mudança radical: de mental ou racional, tão valorizado antes, precisou aprender a ser “coração”. Não era preciso mais algum conceito mental pra viver tudo o que observava, mas apenas experienciar. Conseguiu resgatar a sua espontaneidade já neste momento. A consequência disso foi descobrir que viver podia ser tão fácil, pois era conduzida pelo seu centro de comando, o coração, abafado pelas tantas crenças que se deixara levar. Este processo era uma espécie de constatação. Dizia pra si mesma, e pra sua amiga, que voava, que era conduzida e que aprendera, finalmente, a viver apenas no Agora.
Tininha foi sendo “levada”, cada vez mais, e nenhuma questão lhe invadia. De repente, percebeu que todas as respostas estavam dentro dela. Quando a espontaneidade é permitida, todas as comprovações e estabelecimentos de sua graça se apresentam. Quem tenta entender e identificar alguma coisa, não tem a chance de viver a graça e o êxtase. Sua forma de viver, anteriormente, já não fazia mais sentido. Aliás, nada fazia mais sentido a não ser olhar pra dentro de si mesma e experienciar o que tivesse que viver.
Discutia estes assuntos cada vez mais e foi mergulhando, mergulhando, até que sentiu que uma clareza, absurda de tão clara, lhe pertencia, de vez em quando. Sabia que se continuasse o seu processo, viveria cada vez mais de forma límpida e isso era fantástico.
Todas as questões anteriores perderam a luz. É que quando se retira o olhar, elas simplesmente morrem. O que aprendeu foi que estava na direção certa e este era o seu objetivo de vida. Namorar? Príncipes? Rejeição? Medo? Nada disso lhe pertencia mais, pois o que mais queria era deixar a vida lhe mostrar o caminho. E exatamente por isso, o amor a ela se apresentou. O amor vivido na unidade!
O que aconteceu à Tininha? Modificou o seu olhar! Resgatou a sua essência! Toda a sua espontaneidade e destemor, que pertencem a todos, estavam impedidos de vir à tona em função de conceitos ou crenças que o mundo lhe apresentou. É preciso coragem para desconstruir tudo e deixar reinar a verdadeira natureza! Isso ela fez e hoje vive plena, voando e aprendendo, apesar do mundo.
Este ser, como muitos neste mundo, que havia perdido a liberdade essencial, descobriu um método que lhe fez reencontrar sua verdade, sua vibração. Não é mais um caminho com retorno, ao contrário, não tem volta, não se quer voltar!!! Dizia que tinha asas e que nada mais a impedia de voar. Tininha resgatou a sua liberdade e descobriu que apenas sendo livre podia ser feliz novamente.
Enquanto não experimentamos a troca de olhar sobre a nossa própria realidade, nos mantemos na ilusão de que somos livres. Para ter a liberdade, é preciso sê-la!! A Paz surge quando calamos a nossa personalidade e não somos mais reféns do seu sistema de crenças. Simplesmente permitindo que o centro de autonomia a tudo processe. Estamos tão imersos na ignorância sobre nós mesmos que nem percebemos o quanto somos manipulados. Transformamo-nos em verdadeiras marionetes! Seguindo idéias e pessoas, mais nos afastamos de quem realmente somos. Mas podemos mudar isso, como o fez Tininha, e assegurarmos o direito à nossa liberdade.
Geralmente, quando olhamos no espelho o que vemos? Vemos as nossas crenças, as nossas máscaras, o monstro que nos tornamos. Agimos neste mundo por conveniências, pois esta é a distorção. A inclusão que traz a unidade é perdida e os papéis representados neste mundo se tornam os nossos personagens diários. A zona de conforto promovida pela personalidade, nos faz ignorar o nosso real estado. Ou nos enganamos diariamente, ou focamos na nossa mudança de olhar! E este é um trabalho pessoal; ninguém pode fazê-lo por nós!
O que eu posso dizer de tudo isso? Que também aprendi muito com Tininha e a maior das aprendizagens é que toda transformação é possível, se nos propomos a ousar. Somos seres livres e precisamos assumir esta verdade!!!Desejo a vocês, uma excelente transformação!
Feliz Ano Novo!!!

Prosa sobre o âmbito relacional da existência, o olhar e o ser-para-outro. Breve diálogo com o pensamento de Sartre.
Por Luiz José Veríssimo

É central para Sartre a apreciação do olhar. No seu conhecido livro O ser e o nada, ele dedica toda uma longa seção sobre a fenomenologia do olhar. Trata-se de um levantamento de como vivenciamos o olhar, tanto do ponto de vista de nos sentirmos vistos, quanto de sermos aquele que olha.
É muito inspiradora, para o trabalho psicoterápico, a análise de Sartre acerca do olhar. Quem explora esse terreno, precisa estudar como Sartre concebe as relações humanas a partir do fenômeno do olhar.
Fizemos um livro com Tereza onde a autora, num certo trecho, pergunta: poderia existir uma consciência no mundo sozinha? E, de pronto, responde: “tudo indica que isso seja impossível, pois cada homem existe no mundo com outros homens” (Erthal e Veríssimo, 2015, p. 54).
O existir em coabitação com outros seres humanos partilhando um espaço comum não é um simples aglomerado de gente, não é só é um estar junto ao outro como se fossem pilhas de roupas amassadas, se bem que, não raro, nos sintamos assim ao andar de ônibus, de metrô ou no meio de uma multidão. O existir humano é um existir conjugado: estamos sempre enovelados com o outro – seja ele planta, gente, animal, etc., numa teia de relações.
Para Sartre, somos a nossa própria consciência. Em termos fenomenológicos, não estamos autorizados a conceber a consciência como uma parte de nossa psique, uma tópica psíquica, um epifenômeno do cérebro, um enfeixamento de processos bioquímicos e fisiológicos. A consciência é um atirar-se para os objetos que ela intenciona. Sartre escolhe, para salientar o caráter intencional da consciência, uma expressão hiperbólica: a consciência é uma explosão para fora de si mesma na direção do que ela visa (2005, p. 56). O que ela visa? O mundo, o corpo, o eu, a natureza, Deus, valores, ideias, conceitos, etc.
Muito bem. Se a consciência é um dirigir-se ao que ela intenciona, ela é, fundamentalmente, relação. Podemos, então, fechar um primeiro retrato do ser humano. Se a consciência é relação, o ser humano é na medida em que se relaciona. E afirmar que o ser humano “é”, é afirmar que ele existe. Se Heidegger (2012) afirma que a existência do ser-no-mundo é a sua existência, Sartre (1987) quer apimentar a assertiva, através da conhecida máxima que propõe que a existência precede a essência. O ser humano não tem nenhuma essência fora seu ser que se projeta constantemente para fora de si mesmo. Esse ser é a consciência, ou, como Sartre designa, o para-si. Por esse nada ontológico, vale dizer, por não portar, de saída, nenhuma determinação que não o ser que se faz na práxis, nas escolhas, no projeto existencial de cada um, Sartre (1987) anuncia outro aspecto imprescindível da consciência: a liberdade.
Detalhe: não vamos confundir o dirigir-se perpetuamente para fora de si mesma que marca a intencionalidade da consciência com algo como a ideia de que a pessoa esteja necessariamente voltada para fora de si, voltada para o “externo”. O caráter extático da consciência é sua transcendência, o não fechar-se como um sistema mecânico que já vem pré-fabricado, seja pela natureza, seja por Deus.
Esse passeio rápido pela fenomenologia e pela ontologia foi para imprimir a conjugação entre a consciência e a existência, que implica um relacionar-se com. Não, há, portanto como existir uma consciência que prescinda do outro para ser consciente de si mesma e do mundo em que se encontra em relação. Até estar no meio de uma multidão é relacionar-se com a multidão, onde a consciência confere vários sentidos a esse momento; não apenas percebe a multidão de uma determinada forma, como se percebe na multidão de
uma determinada forma, e reage emocionalmente ao seu estar na multidão. Por exemplo, numa noite de Réveillon, bem na hora do espocar da meia noite, alguém pode se sentir eufórico, enquanto outra pessoa, mesmo cercada de tanta gente, pode se sentir a pessoa mais solitária do mundo.
Como se dá esse relacionar-se constante da consciência para fora de si mesma? Ou, em termos mais simples, como se constitui o nosso relacionar-se? Sartre injeta o olhar como gênese da consciência de si e do outro. A consciência ao descobrir o outro torna-se um ser-para-outro. “Descubro a mim mesmo, e, ao mesmo tempo, os outros; apreendo-me perante o outro” (Erthal e Veríssimo, 2015, p. 54).
Poderíamos apressadamente concluir que o ser-para-outro é um alguém que vive em função do outro. Essa é, de fato, uma das miríades de possibilidades do ser-para-outro, mas não esgota o assunto. Por isso, precisamos avançar a apresentação do ser-para-outro.
Descobrimo-nos como um ser-para-outro no olhar, mais precisamente, no momento em que nos percebemos vistos pelo outro. Esse é um problema que dá contornos concretos à liberdade, que deixa de ser uma abstração conceitual para se tornar o índice de nossa situação no mundo. A existência do outro é uma liberdade colocada diante de mim. “Nessas condições, a descoberta da minha intimidade desvenda-me simultaneamente, a existência do outro como uma liberdade colocada na minha frente, que só pensa e só quer ou a favor ou contra mim” (Sartre, 1987, p. 16). Com essa citação, não querermos dar a entender uma dicotomia simplista, do tipo: ou o outro está comigo ou está contra mim; e sim, que a liberdade do outro se confronta com a minha. E o fundo dessa fricção é o olhar. “Uma pessoa (…) se escolhe perante o outro. Ela quer obter a liberdade em cada situação particular, mas descobre que sua liberdade articula-se com a liberdade dos outros, da mesma forma que a dos outros articula-se com a dela” (Erthal e Veríssimo, 2015, p. 54-55).
Faz-se mister, desde logo, pontuar que a fenomenologia do olhar levada a cabo por Sartre não se reduz a um problema de visão psicofísica. Precisamos interrogar o que o olhar significa. “Sinto-me constantemente flagrado(a) pelo outro, observo-me, “conheço-me” mediado pelo olhar do outro: “o outro é o mediador indispensável entre mim e mim mesmo” (Erthal e Veríssimo, 2015, p. 58-59). O ser visto trata do sentir-se avaliado, flagrado, sentir que a identidade e a autoestima escorrem em direção ao ser visto pelo outro.
Voltamos, em círculo hermenêutico, ao ponto de partida. É impossível a existência concebida como uma solitária consciência a ditar a ordem e o sentido do mundo. Nesse ponto, há quem, inclusive aposte que o ser como relação não é somente uma essência antropológica, como revela um fundo genuinamente ontológico.
Para estudiosos de religião, como Jack Miles, Jung, Leonardo Boff, Martin Buber, e tantos outros, nem Deus manteve-se isolado: criou o cosmo, o ser humano, a mulher, o homem. Para Sartre, Deus é uma essência que é pura consciência de Si, é ausência de qualquer falta. Jack Miles (1997, p. 449) assinala a passagem bíblica que prescreve o ser humano como imagem e semelhança de Deus (Gênesis, 1, 26). A seguir, pontua: “Essa frase sempre foi lida como uma afirmação da nobreza da humanidade, mas ela pode ser tomada também como uma afirmação da não transparência de Deus para si mesmo. Ele quer uma imagem porque precisa de uma imagem” (Miles, 1997, p. 449). O pensamento de Miles nos trouxe, em outra ocasião, a provocação que reproduzimos. “Esse modo reflexo revela, afinal, uma não transparência inicial de Deus para si mesmo, uma descoberta de Si que convoca um outro, o ser humano” (Veríssimo, 2010, p. 49). Segundo o próprio relato mítico, Deus não criou uma cópia de si mesmo. Ele criou uma criatura finita, mas com um potencial de crescimento e experiências fantástico (nesse sentido, infinita), “que possibilitou a Deus conhecer melhor a Si mesmo a partir da relação com o ser humano e o curso da história” (Veríssimo, 2010, p. 69).
Se deixarmos a existência concreta de Deus entre parênteses, notamos, aqui, que até numa concepção religiosa, a consciência jamais se encarcera em si mesma, como fica estampado na imagem do divino que não prescinde do ser humano, ao revés, é relação com o mundo, com a humanidade e com cada pessoa.
Tereza Erthal acentua que a palavra Deus se tornou vazia de significado em nossa cultura. “A palavra Deus se tornou um conceito fechado. Ao pronunciá-la criamos uma espécie de imagem mental, um velhinho de barbas brancas, isto é, uma representação mental de alguém ou de algo externo a nós, e, quase invariavelmente, do sexo masculino. (…) Além do desgaste da palavra, existe o desgaste do que as religiões institucionalizadas fizeram Dele” (Erthal, 2008, p. 124 e 125).
Sartre trabalha a partir de tal representação tradicional de Deus. Deus é, para Sartre uma consciência Em-si-Para-si, isto é, uma consciência plena, acabada, absoluta, completa, sem nenhum fissura, sem nenhuma possibilidade de transformação, por ser a absoluta perfeição. Por isso, Sartre estima que precisa opor a consciência humana à consciência de Deus. Mas esse é, ressalta Erthal, um problema tipicamente da mente. “quando há identificação com a mente, cria-se uma tela opaca de conceitos entre a pessoa e o eu interior, entre o eu e o outro. É o que dá a sensação de separatividade” (Erthal, 2008, p. 128). Ora, perguntamos, o que é a separatividade senão o desejo de negar a relação?
Erthal acompanha com familiaridade o caráter relacional da consciência. Se a consciência concebe uma imagem a que alguns chamam “Deus”, e, dessa forma, Deus adentra na existência através do imaginário humano, “não há homem sem Deus, não há Deus sem homem. Tudo o que se sabe sobre Deus, sabe-se por meio de um ser humano. Tudo o que se sabe do Absoluto, sabe-se por meio de um ser relativo”. Erthal conclui que se trata de descobrir, em cada ser humano, “esse trabalho de síntese, esse processo de interação entre matéria e espírito (…). Todo homem, budista, cristão ou de outra religião qualquer, descobre essa síntese, e é por isso que se pode falar da síntese em uma linguagem que não é obrigatoriamente religiosa. É preciso tomar consciência dessa realidade que no homem ultrapassa o homem” (Erthal, 2008, p. 130).
Essa realidade é, para Erthal, nada menos que a própria consciência. A consciência ultrapassa as amarras da mente que se prendem a crenças, conceitos e representações tradicionais. Sendo relacional, a consciência se constitui como ser-para-outro, mas também como ser-para-si. Mas, o ser-para-si para adensar-se em suas possibilidades próprias, não precisa matar Deus, como acreditam Sartre, Nietzsche Marx, Freud, os chamados mestres da suspeita. Na verdade, matar Deus ou ficar preso dentro de representações do divino é típico da mente.
Diante de nós abre-se uma janela de compreensão no sentido de que a consciência é relação, incluindo autorrelação, enquanto a mente prima pela separatividade, eu versus você, Eu – Isso, na linguagem de Buber (1977). Arriscaríamos dizer que muitas considerações de Sartre a respeito da consciência enquanto ser-para-outro são descrições precisas de costumeiros estados da mente, que os orientais já conhecem há muito tempo sob a denominação de maya.

Referências
BUBER, Martin. Eu e Tu. Trad. de Newton Aquiles von Zuben. São Paulo: Moraes, 1977.
ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. A visão sartriana de Deus. In ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto. Psicologia e Religião. São Paulo: Cengage Learning, 2008.
ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha e VERÍSSIMO, Luiz José. Sobre o amor, a paixão, o olhar, as relações humanas. Diálogo com Sartre e com o Humanismo. Curitiba: Appris, 2015.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Trad. de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 6ª ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2012.
MILES, Jack. Deus: uma biografia. Trad. de José R. Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Trad. de Rita Correa Guedes. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
_____. O ser e o nada. Trad. de Paulo Perdigão. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
_____. Situações I. Críticas literárias. Trad. de Cristina Prado. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
VERÍSSIMO, Luiz José. Ética da reciprocidade. Diálogo com Martin Buber. Rio de Janeiro: Uapê, 2010.

A busca e o Caminho

Ao longo das idades, o homem parece ter buscado algo além de si próprio, mais do que bem estar material. Algo sempre o perturbou e foi buscar a verdade, Deus ou realidade, qualquer coisa imperturbável pela corrupção humana. Qual a finalidade da vida? Tem ela algum significado? Presenciando uma enorme confusão reinante na vida, e vivenciando uma grande frustração, queria saber se havia alguma coisa além de seus próprios limites. Sem encontrar o que sempre buscou, precisou cultivar a fé, quer em um salvador, um profeta, um guru ou num ideal; a fé que invariavelmente gera a violência. E na batalha da vida, aprendeu a estabelecer códigos de conduta, de acordo com a sociedade vigente. Aceitou padrões de comportamentos como parte de sua tradição. Entendeu que tinha que esperar que alguem lhe dissesse o que seria certo e errado, até que suas reações foram se automatizando. Viveu daquilo que lhe disseram e se afastou do seu experienciar.
A história teológica mostra que se observamos determinados rituais, recitarmos preces ou cântigos sagrados, obedecermos aos padrões, controlarmos os desejos, enfim, depois de torturar bem o corpo e o espírito, encontraremos a paz e nos livraremos deste mundo desprezível. Uma espécie de bilhete de entrada pro paraíso. A mente, assim, foi se ajustando aos padrões estabelecidos. Contudo, a mente embotada pelo ajustamento disciplinar não é capaz de achar caminho algum, a não ser em conformidade com a sua própria deformação. Com esta atitude, o olhar foi se especializando na observância externa, nas buscas exteriores.
O caminho tradicional parte da periferia para dentro visando atingir a infinita beleza do amor, através do tempo. Ensinam-nos a ir retirando camada por camada até chegar ao centro. Decepcionado o homem fica quando nada encontra. Mas a mente está embotada, insensível. O que conseguiria enxergar?A primeira causa da desordem é buscar a realidade prometida por outros. O seguidor é aquele que busca uma garantia de uma vida espiritual confortável ou a saída desta prisão. Embora o homem seja avesso à ditadura, ou qualquer forma que restrinja a sua liberdade, permite deformar a sua mente e a sua vida se colocando aos pés de um tirano qualquer. Mas, se por outro lado, ele rejeitar realmente tal autoridade dita espiritual ou absoluta, assim como as crenças, dogmas e rituais, sente-se sozinho, em conflito coma sociedade. É deste ponto que os falsos gurus se aproveitam. Não apenas existe ua sensação de solidão, como deixa de ser um humano respeitável, ou vai perder a oportunidade de receber os ganhos prometidos. Ele perdeu a confiança natural em si mesmo e o que resta é confiar em alguem que a represente. Se rejeita por ter compreendido a imaturidade desta atitude, libertando-se do medo que tanto o aprisiona, transcende a armadilha da respeitabilidade. Não há o que se buscar. A busca é como olhar vitrines, sem visitar seu conteúdo. Como nos disse Krishnmurti em uma de suas conferências, “Só há falta de maturidade na total ignorância de si mesmo. A compreensão de si próprio é o caminho da sabedoria.”
Todas as formas exteriores de mudança, produzidas pelas guerras, revoluções, reformas, leis e ideologias, falharam completamente, já que não mudaram a natureza básica do homem e, portanto, da sociedade.Poderia perguntar se uma sociedade onde vigora a competiçao acirrada, a brutalidade e o medo pode ser extinta? Terminar não conceitualmente ou como uma esperança, mas como um fato real. Isso somente vai acontecer quando cada um de nós, não importando a que cultura pertençamos, for inteiramente responsável por tada a situação do mundo. Por acaso não somos responsáveis por todas as guerras, geradas pela agressividade de nossas vidas? Nosso nacionalismo, nossos preconceitos, nossos ideais, nossas crenças, tudo isso nos divide.
A verdade sobre si mesmo e sobre o mundo não oferece um caminho. A verdade é viva, simples assim. Somente coisas estáticas tem um caminho já traçado. A verdade vibra! É algo que se move, que não tem pouso, que não tem templos ou exige rituais. Nenhum filósofo pode levar a verdade ao outro. Isto é atingido através da vivência pessoal- a coisa viva é o que realmente somos com nossa brutalidade, angústia, desepêro,etc. A compreensão de tudo isso, isto é, no experienciar destas coisas, encontra-se a verdade.
Concluimos que não precisamos depender de niguem: não há instrutor ou qualquer autoridade que seja capaz de encontrar a verdade que eu sou, por mim.Só existe a nossa relação com o mundo , com as pessoas e nada mais. Um psicólogo irá facilitar este processo estimulando a vivência e aceitando incondicionalmente o seu cliente. Isto o levará a abrir a possibilidade de procurar aceitar a si mesmo. Observe o que está acontecendo em sua vida diária, interior e exteriormente. Vai perceber que tudo se baseia num conceito intelectual e o intelecto não constitui o campo total da existência. Observando o que acontece no mundo, perceberá que não há processo interior nem exterior.O que há é um processo unitário, uma espécie de movimento integral, sendo que o movimento interior se expressa no exterior e o movimento exterior reage ao interior. O que é necessário é olhar este fato. E ninguem pode ensinar-nos a olhar. No máximo se pode ajudar à pessoa a perceber seus impeditivos, aquilo que parece obstruir seu olhar, mas o seu olhar é único . Portanto, olhe, simplesmente. Permita que sua mente irascível se abra à possibilidade do novo, do não dito, do não controlado, e descobrirá que as respostas já estão contidas nas perguntas.
Perguntam se não teria outro caminho, então. Por que não causamos uma explosão do centro? Talvez esta explosão seja a vibração atingida quando, a sós consigo mesmo, está livre pra fazer a sua própria descoberta.Havendo liberdade, há energia. Difere inteiramente da revolta, pois não há agir correta ou incorretamente, quando há liberdade. Logo, não há medo, e a mente sem medo é capaz de infinito amor, E o Amor pode fazer o que quer.

O nascimento de uma nova consciência.

Tereza Erthal

Nestes dias de perturbações emocionais e físicas, tenho ouvido, muito frequentemente, dificuldades que levam até a uma desorientação espaço temporal em muitos. Sensações de que os dias estão rápidos demais; extremo cansaço; dificuldade de dar conta de tudo que antes fazia naturalmente; falta de humor equilibrado, etc. Muitas mudanças estão acontecendo, mas a principal diz respeito ao nascimento de uma nova consciência. Como? Quando? Não está determinado, inclusive porque o futuro é sempre indeterminado. A única coisa revelada e que podemos conhecer é este momento: o Agora! Do Agora, milhões de caminhos possíveis se apresentam e, com eles, uma enorme rede de infinitos futuros possíveis. Ainda que possamos dizer que o passado possa trazer alguma aprendizagem quanto a padrões comportamentais capazes, talvez, de prever um futuro mais provável que outro, a escolha continua sendo nossa. Nós decidimos se o passado determinará nosso futuro. Sabemos que previsões se relacionam a probabilidades e estas ao passado experienciado. Contudo, nosso poder como Pessoa traz a possibilidade de um rompimento com este passado, criando um caminho completamente diferente. Somos dotados de liberdade de escolha e temos, portanto, o poder de transformar, transmutar e recriar a nós mesmos. Neste sentido, somos co criadores da existência, já que possuimos o poder de criar a partir do nada.
Quando muitos falam desta nova realidade ou consciência, nunca podemos nos esquecer que somos mestres da nossa propria realidade. Toda mudança está relacionada à realidade interna de quem tenta.E há muitas realidades! A realidade escolhida vai responder às necessidades internas e aos desejos de cada um.
Vivemos num mundo de dualidade e nela experimentamos todos os extremos. É natural, nesta cena, vivenciarmos papéis distintos em diferentes dramas, como um ator numa novela: saudável, doente, rico, pobre, religioso, ateu,etc. O profano e o sagrado são vivenciados por muitos. Muitas habilidades surgem daí, afinal, tais experiências nos trazem a possibilidade de experimentar inteiramente o que é ser um humano, uma pessoa. Tais experiências humanas são intensas e muito variadas. Estamos imersos em um enorme campo de sensações, pensamentos e sentimentos e, devido à dualidade existente, o contraste e a intensidade entre elas se destacam.
O processo de criação é uma luta, onde muita resistência ocorre na tentativa de bloquear a realização dos sonhos. Como existe um intervalo entre a idéia e a criação, muitas coisas ocorrem ai. Fazer nascer uma idéia é um processo penoso e requer esforço pra muitos.É necessário perseverança, clareza mental e os sentimentos limpos, isto é, um coração aberto e confiante. Na dualidade tudo é lento, pois temos que lidar com todos os impulsos contraditórios, dúvidas, falta de apoio,etc. E muitas vezes, o brilhante papel de uma criação vai por terra exatamente por estes entraves. Contudo, são estes mesmos problemas, com seus fracassados resultados, que fazem com que a experiência seja tão valiosa.Podemos dizer que os desafios são nossos maiores mestres, de fato. Embora muitos se deseperem com a natureza não muito amena de suas realidades, que a realidade não lhes contempla com aquilo desejado, ou que o propósito criativo resulte em desilusão, em algum ponto do caminho uma chave surge. Esta chave, que pode ser prenúncio de paz, não será encontrada do lado de fora, nas possibilidades externas do nosso ser. Está mais próxima do que parece: está dentro de cada um. Uma vez tangenciada, uma invasão de alegria ocorre. Mas não se trata apenas de alegria; trata-se sim de um nascimento de uma possível maestria. O êxtase experienciado nestes momentos traz o poder de resolver tudo, absolutamente tudo o que está incompleto. Em contato com a própria dor, compreendendo-a e aprendendo a lidar com ela, não apenas traz a cura de si mesmo, como também conduz à compreensão da dor do outro.
Gosto de dizer que somos exploradores do desconhecido ou criadores de um mundo novo.Nossas explorações nesta dualidade nos tem servido para além da imaginação. Um novo tipo de consciência pode surgir, como uma espécie de alquimia que transforma chumbo em ouro. Não se trata de transformar mal em bem, como muitos reportam em suas religiões. Mal e bem são opostos naturais onde um necessita do outro pra existir.A verdadeira alquimia está numa terceira energia, se podemos falar assim: um tipo de consciência que dê conta de ambas as realidades, através da compreensão. É preciso deixar claro que não me refiro à compreensão intelectual, mas fenomenológica. Precisamos ir além destes opostos para criar esta nova consciência capaz de manter a unidade, em qualquer situação. No processo de procurar aquilo que tanto ansiamos, estamos criando bases para a sua existência. Ao explorar o novo, paradoxalmente, estamos criando-o. Não saber quem somos já em si constitui um incentivo à mudança, ao crescimento. Toda ignorância gera medo e o medo gera a necessidade de controlar. O resultado é a luta pelo poder.
A transcendência da dualidade, rumo à unidade, necessita do total desapego. Mas este somente poderá nascer se a dualidade for constatada e vivenciada. No jogo da dualidade, uma polaridade é escolhida: fraco ou forte, otimista ou pessimista, sensível ou insensível…Vivemos a polaridade escolhida até a última possibilidade, ou seja, somos os atores que se identificam com o personagem escolhido. Neste caso, não importa o lado, estamos dominados pela dualidade, completamente. O papéis são tão fortes que nos esquecemos de nós mesmos. Os dramas passaram a ser a nossa principal realidade.O resultado? Solidão e medo!
A dualidade nos convida a viver uma vida emocional instável, a estarmos completamente envolvidos com o mundo exterior ( a auto estima é construida no mundo externo), críticos, etc. Em tudo isso, não estamos realmente presentes.Nossa consciência acaba sendo dirigida por padrões de pensamento cobertos de medo. A tentativa de viver de acordo com a expectativa de outros é o melhor exemplo disso. Reage-se a partir do medo e o comportamento exibido parece ser o de recolher amor, admiração ou algum tipo de cuidado. As partes escondidas de nós mesmos ficam sendo atrofiadas.
Não é difícil mergulhar em si mesmo, como muitos dizem pra depois oferecerem métodos únicos de saída. Podemos fazer isso sozinhos e da nossa forma.Motivação costuma ser mais importante do que qualquer método. Ao entrar em contato com as partes escondidas de si mesmo, uma pessoa se torna mais presente. A consciência se eleva acima dos padrões conhecidos e geradores de medo. Esta consciência pode dar conta das mágoas, ressentimentos, raivas ou qualquer ferida interna.
E, então, o que precisamos fazer para parir este estado de consciência? Em primeiro lugar, escutar a nós mesmos, isto é, ouvir o que as emoções nos tem a dizer; cultivar o silêncio para que esta escuta seja completa; questionar os padrões de pensamentos e as regras comportamentais que estamos mergulhados. Em suma, tornar a consciência capaz de sustentar a dualidade em nossas mãos. É preciso encontrar o ponto certo de ancoragem num centro imóvel. Os filósofos gregos vislumbraram este estado que chamaram de “ataraxia” ou imperturbabilidade. Saímos deste centro ao vivermos o medo. Quanto mais liberamos estas energias, mais nos tornamos serenos. Vai se manifestando externamente a ponto das pessoas notarem algo bom e diferente que talvez nem consigam rotular. As mudanças internas são precursoras das mudanças em nosso mundo exterior. É a consciência que cria a realidade material que habitamos.
Ao experienciarmos o silêncio, pleno de alegria, saberemos que chegamos no lugar que tanto desejavamos. A felicidade não mais estará baseada no material, mas na forma como o experimentamos.
Enfim, a nova consciência, que agora surge, é aquela que nos resgata de sermos refém da continuidade da história. Convida-nos a ser o diretor principal de um enredo próprio. Fazemos a nossa história e, agora mais do que nunca, estamos a ponto de fazer uma marca, talvez nunca vista anteriormente: a de sermos seres com o poder de regressar às origens e resgatar a Luz própria. Mergulhem! Ousem! E se descubram senhores da Vida.

Perspectiva humanista do amor. (do livro de Erthal e Verissimo, Sobre o amor, a paixão, o olhar e as relações humanas)

Numa visão humanista, podemos admitir que o amor é uma escolha e um processo de transformação constante. O objetivo como ser é o amor universal, uma vez que o amor não pode ser excludente. Seu crescimento implica em sua abrangência.O mor por uma pessoa é capaz de despertar o amor por toda a humanidade. Mas, por outro lado, pode não passar de um mimo narcísico para os amantes. Em face disto, a filosofia medieval interpretava o sentido de totalidade amorosa como Deus. Dizia que amar alguém era amar a pessoa em Deus.
” O amor a uma pessoa difere do amor a uma simples coisa. Amamos as coisas em atenção à nossa própria pessoa, a cujo serviço se ama e s consome…O amor puro, sincero e generoso a um ser pessoal, ao contrário, visa a pessoa como tal e a si mesma. ..
Amar sinceramente a outrem significa amá-lo como a nós mesmos, o que só é possível num plano de igualdade…(Boehner e Etienne, História da Filosofia Cristã,1991,p.189)
Se quisermos dizer que o amor enquanto relação amorosa é um crescimento de mãos dadas, precisamos completar tal sentença dizendo que isso pode ocorrer, mas a partir, igualmente, do desenvolvimento concomitante das singularidades. Duas pessoas não vão crescer da mesma forma e ao mesmo tempo. É necessário aceitar que cada uma delas está se comportando como pode naquele momento.É sua jornada pessoal.
Na verdade, viver no amor é o maior desafio da vida. Não se ama para ser amado, mas ama-se para amar. … O amor precisa de liberdade para crescer- não de arbítrio, mas da responsabilidade implicada em cada escolha que envolve não só o eu como o outro todo o tempo. Justamente por isso,não existe um amor certo como modelo único, mas muitas formas de amar. Através do autoconhecimento e do conhecimento do outro, o que não é feito por livros ou manuais de educação sentimental, mas forjados pelas vias da própria existência, de uma afinação sensível que envolve EU e TU, descobre-se que o amor ´algo construído na intersubjetividade e que na experiência amorosa há uma equalização do ama ao próximo como a ti mesmo, ou, o que dá no mesmo, amar a si mesmo é a condição de possibilidade de um amor ao outro.
” …para termos amor próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor- a negação do status de objeto digno do amor- alimenta a autoaversão. O amor próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros.” (Bauman, 2004, Amor Liquido, p.100)
Bauman não se atém, necessariamente, ao horizonte de inspiração de Sartre…, ou seja, a luta das consciências pelo reconhecimento. Trata-se da relação, necessária entre amar e ser amado, ou melhor, amar e sentir-se reconhecido, valorizado. … Como amamos alguém nos ausentando, pela má fé de nós próprios, apenas para cativar e manipular o desejo do outro para apontá-lo em nossa direção?
Estamos, pois, em algum lugar entre o conhecimento de si e a abertura para a inclusão do outro, entre amor ao outro e a autoestima. Na verdade, a existência implica ambos os polos, sem solução de continuidade; por isso, a formulação interessante de Buber, EU e TU.
Segundo Buber, existem duas formas de o ser humano se relacionar. A primeira designa como EU e TU, encontro entre o eu e o outro, onde o acento está no entre, na relação. A segunda chama de EU-ISSO, que é uma atitude objetivante de experiência e utilização. A relação é um evento que acontece entre o ser humano integral e o ente que se lhe defronta. Através do encontro dialógico ocorre a recíproca presentificação do Eu e do Tu. E elo, o entre dessa relação seria o amor. O amor não se encontra fundado, em primeiro lugar, no sentimento. Na dimensão Eu e Tu, o foco está na relação e não na alternância, ora do sujeito, ora do ser humano na condição de objeto. Segundo Buber, o amor é uma responsabilidade que temos para com o outro e é nisso que consiste a igualdade daqueles que amam. Essa igualdade não é nivelamento ou anulação das diferenças. Pelo contrário, é uma afirmação da alteridade, uma posição não mais vertical e hierárquica das relações, num embate perpétuo de poderes pela primazia da posse da liberdade através do olhar do outro…. O reconhecimento pelo outro traz um espelhamento de si mesmo. Tratamos de uma referência à liberdade que se faz na intersubjetividade, cuja máxima reza que, quando escolhemos, escolhemos não só para nós, mas para todos os seres humanos.