O PERCEBIMENTO COMO JANELA PARA O AUTOCONHECIMENTO.

Vamos falar de consciência. Trata-se do campo total onde funciona o pensamento e existem as relações. Todos os motivos, intenções , temores, inspiração, anseios, esperanças, dores, alegrias, se encontram nesse campo. Mas as pessoas estão acostumadas a dividir a consciência em ativa e latente, isto é, na superfície estariam todos os pensamentos, sentimentos e atividades de cada dia e, abaixo deles, o chamado inconsciente ou subconsciente, abrigando as coisas que não nos são familiares e que se expressam via sonhos, intuição ou sugestão.
Existiria mesmo esta parte latente em nós? Por que razão atribui-se a esta parte uma grande importância? Seria possível ficarmos completamente cônscios de todo o campo da consciência e não apenas de uma parte? Se pudermos, a atenção será completa e não há atrito.
As pessoas vivem de maneira fragmentária; são uma coisa no trabalho e em casa, outra coisa. Fala-se de amor aos demais, mas estão se matando em competições. Você está cônscio desta consciência fragmentária no seu interior? Seria possível ao cérebro, que dividiu o seu próprio funcionamento, o seu pensar em fragmentos, tornar-se cônscio do campo inteiro? É possível poder olhar o todo da consciência completa?
Examinando cada pensamento, sentimento e motivo, nos veremos enredados no processo analítico, que levará tempo. Talvez este não seja o caminho para fazermos sozinhos, pois teremos que lidar com toda a forma de deformação, já que o “ eu” é uma entidade complexa que vive, luta, deseja e nega. Mas como então? Podemos dizer que a única maneira de olharmos pra nós mesmos é fazê-lo totalmente, imediatamente, fora do tempo. Mas isso só pode ser possível sem uma mente fragmentada. O que é visto em sua totalidade é a verdade.
Nunca olhamos para nós mesmos de fato, nunca! Lançamos a culpa no outro, satisfazemo-nos com explicações ou temos medo de olhar. Se pudermos aplicar toda a nossa atenção, todo o nosso ser, tudo que temos, nossos olhos, ouvidos e nervos, estaremos atentos com o mais completo autoabandono e não haverá mais lugar para o medo,contradição e,consequentemente, não haverá conflito.
É preciso deixar claro que atenção não é o mesmo que concentração. Esta é exclusão, enquanto a atenção é o percebimento total que nada exclui. A maioria das pessoas não está cônscia do seu ambiente, das suas cores, das pessoas ao seu redor, das árvores, etc. Estão tão interessados em seu insignificante problema, em suas próprias idéias, seus prazeres, que não ficam objetivamente cônscios. Não estão conscientes nem das coisas interiores, nem das exteriores. Para compreendermos uma pessoa, por exemplo, temos que dispensar-lhe toda a nossa atenção, e isso é percebimento. É o estado de atenção total e nesse percebimento se revela a totalidade de nós mesmos, instantaneamente.
Costumamos pensar de forma comparativa: feliz/infeliz, triste/alegre,etc. E estes estados são classificados assim em comparação ao estado da mente de alguém.Quando alguém diz que sua mente é limitada, comparou a sua mente com a de alguém mais brilhante. Podemos conhecer a nossa pequenez sem comparação? Sentindo fome, não precisamos comparar essa fome com a que sentimos ontem. A fome de ontem é somente uma idéia, uma lembrança.
Se estamos sempre nos comparando a outros, estamos negando a nós mesmos. Logo, estamos criando uma ilusão e um sofrimento maior ainda. A mente precisa parar de buscar. Isso não significa que estamos satisfeitos com as coisas como são, mas que não temos ilusão alguma. O que abre a porta é o percebimento e a atenção diários ( da maneira como falamos, do que dizemos, de nossa maneira de andar, do que pensamos. Observar o estado da mente sem tentar moldá-lo, sem ser parcial, sem julgar ou justificar. Isso significa estar vigilante o tempo todo e ai sim podemos dizer que, em razão do percebimento, uma porta se abriu e uma nova dimensão de consciência aparece, onde não existe conflito, nem tempo. Esse é o caminho para o autoconhecimento.