DESENVOLVIMENTO DA TÉCNICA: “FAZENDO AS PAZES COM O SEU PASSADO.”

Desenvolvimento da técnica “Fazendo as pazes com o seu passado”
Tereza Erthal
I.Introdução:
Aquilo que nos fez sofrer no passado, pode se arrastar no presente e atravancar nosso progresso futuro. É como se a perpetuação dessa sofreguidão criasse uma rede onde tudo convergisse para a nossa dor. Ressentimentos impedem de vermos os prazeres da vida e as dores da alma vão se localizando no corpo e deixando suas marcas através da doença. Isto não significa que o passado nos determina, mas que o passado inacabado, torna-se sempre presente, atuando sobre nós como uma influência nefasta. É mister tomarmos consciência disso para que possamos agir em nosso proveito.
Tem sido provado que a capacidade de desenvolver o perdão faz com que as pessoas vivam bem mais e com mais qualidade de vida. Mas o problema em perdoar está em confundir o perdão com conciliação ou aproximação como velhos amigos, quando a pessoa a ser perdoada era um algoz. Mas não se trata de fazer as pazes com ela e esquecer o que foi feito. O que o perdão significa é um novo olhar para a situação, uma ressignificação. A situação é vista de uma nova forma. O passado factual não pode ser mudado, mas quando damos um novo significado a ele, tudo muda. Libertamos a pessoa e a nossa parte na história. A libertação, através do perdão, ocupou um lugar importante n ciência, embora alguns ainda a vêem pelo aspecto religioso. Muitas doenças já foram estudadas ( alergias, problemas cardiovasculares, gastrites, fibromialgia, lombalgia, enxaquecas e outros), indicando que elas são o resultado de algo inacabado que grita por atenção. Estudos vem colaborar para essas afirmações- Hope College, em Michigan, pela psicóloga Charlotte Van Oyen Witvliet, Stanford com Fred Luskin que criou um projeto para o perdão, Robert Enright da Universidade de Minessota que criou o Instituto Internacional do perdão…, são alguns exemplos desse avanço. Existe um poder terapêutico no perdão.
“Não perdoar é como pegar um carvão em brasa para jogar no outro: você, com certeza, será queimado.” Buda
Portanto, nesse trabalho, estamos focados na libertação de parte do eu que ficou aprisionado num passado doloroso. Trazemos este passado para o agora e ressignificamos as partes. O perdão parece finalizar a compreensão, alterando o presente. Como Sartre nos disse, chega a hora em que temos que escolher entre dois caminhos: ou continuamos continuadores passivos da nossa história, ou a ultrapassamos, criando o nosso próprio roteiro. Qual seria a sua escolha?

II. Compreendendo a relação da consciência com as doenças:
Experienciamos o mundo através da consciência. Trata-se de um estado de captação que nos leva a agir de uma forma peculiar. Na tentativa de preencher o seu vazio, a consciência se volta para os fenômenos do mundo através dos sentidos. Pode captar o fenômeno pela imaginação, pela audição, visão, etc. Também sabemos que existem várias formas de consciência. Sartre definia dois modos de consciência ( irreflexiva e reflexiva), bem definidas por Descartes. A primeira é irracional, passiva, irreflexiva e, portanto, sem qualquer julgamento sobre o que é percebido. Digamos que podemos entendê-la agora como um modo que inclua o que é instintual, isto é, um modo de consciência mais baixo, ligado às sensações. Na consciência de segundo grau ou reflexiva, já existe um eu que reflete e julga. Nesses casos, as atividades mentais são necessárias para que ela possa existir. Por mente denomino o conjunto das faculdades intelectivas do homem, a função da personalidade que Jung chama de pensamento e os psicólogos denominam intelecto. A mente dá ao homem o poder de pensar, raciocinar e tomar conhecimento do que é percebido por meio dos sentidos. É o que dá ao homem a condição de ser consciente de si. A mente é impedida de ser a grande mediadora entre o mundo subjetivo e o mundo objetivo, porque é o único aspecto da personalidade que tem uma natureza dupla: o pensamento concreto e o pensamento abstrato. Entretanto, o homem, na maioria dos casos, usa apenas a parte exterior da mente, desenvolvendo a mente o pensamento concreto, que o impede de perceber as idéias intuitivas. Em um patamar mais alto estaria a mente abstrata, com suas análises e reflexões abrangentes, descentralizadas. Entre as duas parece existir um outro modo de consciência, a emocional, que em vez da forma de captação da realidade se processar apenas pelos cinco sentidos, constitui outra forma de apreensão. Se a primeira é irreflexiva, a segunda poderia ser vista como pré-reflexiva, indicando que nela existe a capacidade potencial de reflexão. Esta consciência emocional pode variar entre a impulsividade, apegos e sentimentos menos elaborados de um lado, até as aspirações mais altas e sentimentos elevados, buscando o bem geral, de outro. O homem emocionalmente maduro possui a capacidade de identificação, empatia ou faculdade de dar. Aprende a superar o egoísmo, os apegos e toda a forma de possessividade, subestimando-os pelo amor altruístico e incondicional.
Assim, podemos falar que existem quatro modos de consciência: sensorial, emocional, mental e espiritual ou consciência intuitiva. As três primeiras, quando integradas, levam ao desenvolvimento da autoconsciência, próprio da personalidade que aprendeu a se conhecer, a cultivar atitudes que lhe faltam, a construir um caráter. A autoconsciência evolui para uma consciência intuitiva ou espiritual, em que há uma transferência da consciência pessoal para a impessoal, na qual há equanimidade ( não há predomínio nem do prazer, nem da dor),em que há o cultivo de felicidade pela confiança interna, em que a paz transcende à racionalização. É pela intuição que tocamos na esfera superior e compreendemos o sentido.
O mundo da intuição é o mundo do significante e do significado. Se a mente nos ajuda a compreender o significado da origem dos acontecimentos, a intuição nos devolve a compreensão das finalidades. No modo intuitivo de consciência há sensibilidade quanto às possibilidades novas que as coisas possam oferecer. Na passagem da consciência mental para a intuitiva ocorre o sofrimento decorrente da separação temporal que tem de passar para transcender. O recolhimento vira uma busca, não como fuga, mas como um sentido. É neste ponto que o homem descobre não estar sozinho. A consciência intuitiva é, na verdade, uma consciência grupal, na qual o homem se percebe fazendo parte de um todo. É a verdadeira consciência, da qual as outras são apenas reflexos imperfeitos. A “ voz da consciência” é uma voz transcendente. É ela quem indica o sentido, tantas vezes procurado e vivido como vazio.
Se ficarmos no plano ôntico, da imanência psicológica ou a esfera circunscrita da pessoa, a consciência intuitiva não pode ser analisada. No entanto, assim que nos transpusermos para uma dimensão ontológica, ela deixa de ser problema, passando a ser um elemento existencial, um atributo da existência humana. Vemo-nos jogados em um mundo no qual os objetos parecem brilhar, como se fossem iluminados por dentro. Essa luz é o “insight”. Inspirar é levar o ar pra dentro, um fluir natural dos sentimentos, através da mente.
A busca para atingir esse modo de consciência é longa e dolorosa. Exige disciplina, intenção e uma crença inabalável na direção pretendida. Quando a consciência espiritual é tocada, dois fenômenos da consciência ocorrem: amor e arte. No caminho para o amor, a inspiração cresce; no caminho para a arte, nasce a criação.
Pelo que já foi dito, podemos dizer que vivemos numa consciência tridimensional onde há uma forte crença nas limitações e deficiências colocadas nas pessoas e nas condições do meio. Uma luta enorme é travada, permeada por um profundo medo, originando um extremo cansaço que permeia as sociedades. A grande maioria das pessoas não está em contato com as suas habilidades, isto é, a sua capacidade natural e ilimitada de criar. Vive-se a ilusão de estar sozinho e separado, sem apreciar a singularidade individual do Universo. O tempo é a maior ilusão e, como uma teia, prende os desavisados.
Mas a consciência tem evoluído para a 4D, que nos leva a sentir que fazemos parte de algo maior que nós. Não há sensação de estar só. O que existe é uma consciência das energias ao redor e o indivíduo se abre para o apoio que existe à sua disposição. Começa a entender e vivenciar o seu lugar dentro de algo bem maior (Consciência Universal) e experienciar uma orientação mais intuitiva.
A consciência 5D passa por um estado de Amor incondicional, um estado de unidade com toda a consciência de vida, uma experiência direta de ser uno com a Consciência Universal, além de um alinhamento consciente com o amor puro de sua essência.
Passar de um estado de consciência 3D para uma de 4D ou 5D é excitante e tem um grande papel na transformação. Quando se toma a atitude de dar início ao despertar, você começa a assumir o seu lugar na vida. O estar desperto leva a um estado diferente de consciência (vibração diferente das células). É a frequência do amor que não apenas nos muda, como afeta as pessoas à nossa volta e todas as coisas vivas. As mudanças que virão, exigirão que você esteja mais consciente do papel que representa agora.
Em função de tudo isso, desenvolvi uma técnica capaz de acessar o modo de consciência que ficamos presos no passado. Este aprisionamento se deve a alguma experiência traumática que fomos submetidos e, sem capacidade de transcender a dor, empurramos para debaixo do tapete ou fingimos que nada aconteceu. Desta forma, a experiência passa desapercebida ( atitude de má fé sartriana), mas não as dores que foram geradas e que ainda permanecem. A impressão é de que estamos sendo atacados, que esta dor não nos pertence, que a vida está sendo injusta. Contudo, estas dores somos nós gritando em algum lugar do passado/presente, querendo a atenção para poder partir.
Passei isso há algumas semanas atrás. Tive um problema na lombar que evoluiu para dores na ciática. Que dores fortes! Em muitos momentos desejei a morte, pois não conseguia dormir (ficar deitada era impossível) ou sentar para ler ou algo assim. As dores dilacerantes me faziam ficar acordada por toda a noite, andando pela casa, já que apenas andando dava um pequeno alívio. Chorava, brigava com Deus, tinha raiva. Nada adiantava, nem mesmo todo o tratamento medicamentoso e fisioterápico. Parecia que eu estava abandonada e que nada iria acabar com o meu sofrimento. Lembrei-me de um filme de nome “ A Guitarra”, de origem argentina, no qual a protagonista, em um só tempo, descobre um câncer terminal, perde o noivo e o emprego, no dia da revelação. Desesperada e sem rumo, retira todo o seu dinheiro e começa uma jornada de coisas que sempre quis e não podia possuir, e passa a viver o momento presente apenas. Viver o agora na sua mais concreta forma. Depois de tantas experiências, descobre que já se passaram dois meses e nada tinha acontecido à sua saúde. Visitando os médicos, descobre que o mal que a invadia, havia desaparecido. Questionando o porquê, foi-lhe dito que o mal que nos acomete tem um meio propício pra se alimentar. Quando mudamos este meio, o tumor se sente fora do “habitat” que o construiu e perde suas forças.
Outro exemplo que me ajudou foi a palestra de uma neurocientista, há uns anos atrás, que foi acometida de um derrame poucos minutos antes de sair de casa para o hospital em que trabalhava. Sabendo que o tumor que mantinha no cérebro era inoperável, primeiro se desesperou. Mais tarde, vendo que o desespero em nada contribuía para um estado melhor, começou a conversar com ele, baseada no fato de que se construiu, esta coisa lhe pertence, faz parte de si. Diariamente, estabelecia um diálogo com ele da seguinte maneira: “ sei que fui eu quem o criou; sei que você não é um invasor como supunha; você faz parte de mim. Portanto, precisamos fazer as pazes e conviver da melhor forma. Seja bem vindo! Estamos no mesmo barco. Não pretendo lhe expulsar, mas aceitá-lo como é. Se eu o fiz, cabe a mim entender e perdoar a você e a mim mesma por esta etapa.” E o diálogo ia ficando mais íntimo entre eles. O resultado? O tumor sumiu! O que o fez desaparecer? O meio no qual foi construído era diferente do meio no qual estava sendo compreendido. Exatamente igual a experiência do filme, também verídica.
Pensando em tudo isso, e com todo o tempo do mundo na madrugada, achei por bem entender o que a dor queria significar. Se antes brigava e sofria ainda mais, agora tinha jogado a toalha e iria tentar me harmonizar com tudo. Comecei estabelecendo um diálogo com a dor; ela me sinalizava algo que não sabia. Havia algum medo ali que precisava descobrir. Vi que estava completamente sozinha, física e emocionalmente. Era uma sensação bastante dolorosa, mas continuei. Pretendia partir de um lugar de desespero para chegar a um lugar de cura física e emocional. Sabia que a melhor maneira de vencer o medo era o movimento consciente na direção do sentimento e da respiração. Fiquei consciente do sentimento de medo, à medida que avançava. Quando fazemos isso, o medo se dissipa. O medo não pode nos machucar. É somente um sentimento criado por nós diante da baixa estima que desenvolvemos.
Há feridas que carregamos no coração que precisam ser curadas. Muitas destas feridas estão conosco há muitos anos. As feridas abertas nos mantém separados do amor que é direito nosso vivenciar nesta vida. A abertura para este novo aspecto do amor produz em si a cura e uma nova sensação de bem estar dentro de nós.
Aprendi que era preciso ser paciente comigo mesma enquanto empreendia esta jornada. Cada experiência que eu fiz neste período serviu para eu estreitar meus laços comigo mesma. Tais alinhamentos me ajudaram a desenvolver-me no meu Self e acelerar a nova consciência da vida e verdade. Deste contato íntimo com as minhas dores e medos, entendi que precisava de um método para eu não me perder na experiência. Depois de estabelecer este contato com a dor, comecei a entender que estava passando por uma revolução emocional e precisava saber quais fases da minha vida eu teria ficado presa em alguma sensação. Comecei a técnica…
III.A técnica propriamente dita:
Em primeiro lugar, achei por bem visitar todas as minhas idades e a dividi em períodos de cinco em cinco anos (0-5;5-10;10-15,etc). A cada etapa, deixava minha mente livre pra seguir as emoções que acompanhavam as lembranças engavetadas. E, claro, elas existiam. Não se trata de recalque, como Freud nos disse. Acredito que o homem é um ser autoconsciente, capaz de tomar consciência de si, seja qual for o problema enfrentado. O que ele precisa é disciplina e vontade, sem julgar nada do que for ver.
A nossa história pode nos ajudar a dar os primeiros passos em nossa jornada, mas chega o momento em que nós temos que deixar a história pra trás. A cura somente pode ser alcançada se for descolada da história. É preciso deixar de ser vítima para assumir a responsabilidade pelo papel representado para ter a experiência. Identificamo-nos com a nossa história, mas somos muito mais do que ela. É preciso coragem pra abrir mão da história e dar um salto em direção ao Self. Precisamos deixar a história limitada tridimencional, que acreditamos ser por pura autossabotagem ou má fé, para atingir a verdadeira liberdade dentro de nós. O processo de autocura é amor, paciência e compaixão por nós mesmos. Devemos ter paciência com os erros que cometemos e perdoarmos enquanto vivemos o nosso dia a dia.
Primeiro devemos mudar conscientemente e estar dispostos a participar das mudanças dentro de nós. Temos que entrar em contato com a nossa criança interior, presa no emaranhado de sentimentos por nós traçados. Esta criança interior guarda os traumas das vivências passadas. Quando apoiar a criança, você vai começar a se conectar com todos os sentimentos que estão ali. Alguns destes sentimentos são profundos. Permita-se sentir e lembrá-lo do que ela está recordando e sentindo algo que aconteceu há muito tempo, e de que ela está bastante segura com você agora. Apenas continue apoiando e deixe os sentimentos aflorarem. Pode ser mais de um trauma e, por esta razão, visitar os períodos mencionados pode ser de grande valia. Existe um processo de ressuscitar a criança que habita em nós. Que lembranças surgem entre 0 e 5 anos de idade? Não force nada, apenas deixe fluir. Virão imagens, diálogos, cenas que marcaram alguma idade desta fase. Acesse o sentimento da criança dentro de você. Estabeleça confiança, cumprindo promessas não feitas, acolhendo, dedicando atenção que ela pede. Converse com ela e peça para ela vir estar com você. Estabeleça um diálogo entre vocês. Fale que você cresceu e que não vai deixar que ninguém a machuque mais. Deixe as experiências surgirem sem qualquer censura. Depois comece a perdoar. Na madrugada me surgiu uma forma básica, e sei que devem existir outras, cabendo a cada um expressar o que acha melhor. Eu fiz assim: “Eu me perdôo, eu te perdôo; eu me liberto, eu te liberto; eu me amo e eu te amo. Somos um só nesta vivência.”É impressionante como aparece um sentimento confortador. Abrindo mão daquilo que nos preenchia no medo, aparece espaço que é preenchido com o amor. Na verdade, só existem dois sentimentos básicos: amor e não amor, este definindo raiva, ódio, inveja, ciúme e todas as formas não amorosas de se relacionar. Uma vez que os sentimentos negativos saem, vão dando espaço de sobra e a energia natural do amor retorna ao seu lugar. É a luz preenchendo cada cantinho do nosso ser. Fiz isso com cada fase e fui encontrando nos diálogos, os motivos que me aprisionavam. Claro que as dores tinham causa física, mas a forma como estava lidando com ela era emocional e precisava ajustar. Estava presa na tridimencionalidade quando podia saber muito mais sobre mim a partir da 4D. Foi o que fiz. As dores foram cedendo, da mesma forma que o tumor da neurocientista ou da protagonista do filme citado. Não se tratava de expulsar nada, mas aceitar tudo o que me pertencia para chegar ao miolo do meu Self.
Muitos acham que o medo aparece apenas diante de situações ruins. Esperamos o fracasso de algo, temos medo de perder o que gostamos, medo de errar, etc. No entanto, o ruim nós já conhecemos e até aceitamos. O que parece mais meter medo é o sucesso. Tememos ter que mantê-lo e não conseguirmos. Se estamos vivendo algo ruim, o que vier de bom é lucro! Mas se vivemos algo muito bom, tememos perder e aí começa a negação. Eu estava diante de uma experiência há muito desejada, mas desacreditada. Queria viver novamente o amor relacional, mas só tinha encontrado traições, mentiras, egos. Uma semana antes da crise vivida, alguém despertou minha atenção de uma forma bem diferente. Sabia que era alguém especial, de mente aberta e totalmente entregue a seus sentimentos. Foi tão forte que me remeteu aos medos mais embutidos. As dores tomaram um vulto bem maior e depois de aplicar esta técnica em mim mesma, tive “insights” espetaculares. Fiz as pazes com a Tereza criança, a adolescente e a Tereza adulta. Acolhi, ensinei, aprendi, abracei. Foram muitas emoções que vivi nestas madrugadas. Valeu à pena cada segundo!
III.1.Como fazer:
Minha sugestão é viver cada etapa por vez, por uns vinte minutos, no máximo. A respiração precisa ser controlada e uma respiração suave é requerida de forma que você mantenha a calma durante todo o tempo. Minha sugestão é utilizar a “respiração consciente” que quer dizer inspirar e expirar pela boca, sem controlar o ar. Traga toda a sua atenção para esta respiração, enquanto a mente é silenciada. Para facilitar ainda mais, sugiro a técnica do balão: inspire, pela boca, como se você fosse uma bola de inflar, enchendo toda ela, e expire esvaziando-a. Faça isso em alguns segundos, não apenas para relaxar, como também para focar no objetivo. Lembre-se de que a respiração tem ligação com o medo e a produção de pensamentos. Quanto mais calmo é o batimento cardíaco, menos produção do pensamento. Feito isso, comece a técnica. Escreva tudo ou grave a sua experiência, pois vai ser bom revisitá-la no fim. Não tenha pressa em concluir tudo. Cada um tem um tempo certo que lhe é próprio.
III.2.Aplicando a técnica:
Como indivíduo, você é solicitado agora a se abrir para você mesma, retirando todo o juízo de valor. Seu coração, em algum momento, se fechou e não permitiu que você florescesse. Você tem uma história e parte dela lhe prende em algum lugar do passado, impedindo-o de seguir em frente, rumo ao amor. Aprendeu a se julgar e, consequentemente, aos outros. Os conflitos internos gritam e constroem muros, confirmando a solidão e separação aprendidas. É necessário entender que você quer ser acolhido e cabe a você começar este processo. Saiba que uma vez enfrentado o conflito interno, uma transformação surge não só apenas em você, mas também com as pessoas que vivem à sua volta.
Esta técnica vai conectar você com você mesmo. Você vai construir uma nova relação consigo mesmo, mas par isso, terá que enfrentar seus fantasmas. A mente é extremamente limitada, totalmente baseada no medo, impedindo-o de correr riscos. São os sentimentos que o farão curar nos níveis físico, emocional e mental. Eles são a chave para as experiências. Esteja aberto para se permitir receber. O medo aparecerá, tal é o nosso condicionamento. Contudo, saiba que a melhor forma de vencer o medo é justamente o movimento consciente na direção do sentimento e da respiração. Fazendo isso, o medo se dissipa. Ele é apenas um sentimento, não podendo machucá-lo. As feridas precisam ser curadas. As feridas abertas o afastam do amor. A paciência consigo mesmo é uma condição necessária nesta jornada. À medida que for avançando na experiência, você acelerará uma nova consciência de vida.
III.2.a.Fazendo o exercício da respiração:
Para facilitar, imagine-se como uma bola de inflar. A cada inspiração, você aumenta de tamanho, enquanto na expiração, você esvazia. Respire pela boca. Fique assim alguns segundos. Isto vai acalmá-lo, além de trazer o foco para a técnica em questão. Lembre-se de que quanto mais ansiedade, mais batimento cardíaco e mais produção de pensamentos frenéticos em sua mente.
III.2.b.Trabalhando nas faixas etárias:
Para facilitar sua experiência, vamos trabalhar por faixas de idade, indicando o período no qual algumas vivências aconteceram. Sugiro de 0-5; de 5-10; de 10-15, etc, como numa escala de pesquisa. Agora entre em contato com a sua criança interior. Ela guarda os traumas acumulados. Traumas são marcas negativas que aparecem diante de situações de choque, vividas. O problema parece ser um elefante, enquanto você era apenas uma formiga. Essa criança clama para ser acordada e resolver seus conflitos. Que a impediram de criar. Acesse os sentimentos dessa criança dentro de você. Sua jornada para o Self não pode ser concluída sem essa conexão consciente com as partes desintegradas de si mesmo. Ninguém teve uma infância perfeita. Sempre existem coisas que o afetaram e que ainda o afetam até hoje. A cura começa nesse contato entre você e sua criança interior. Quando o medo e a dor são grandes o suficiente par lidar quando somos crianças, as partes infantis se dividem. Uma parece guardar a dor a sete chaves, enquanto a outra permanece no modo “sobrevivência”. O tempo foi interrompido para essa criança e, por isso, ela desconhece o adulto que você se tornou. Você precisa tomar consciência dos incidentes em sua vida que espelhem o trauma que foi tecido. Deixe fluir!
O que lhe vem à cabeça nesse período de 0 à 5 anos? O que você vê e sente? Pode aparecer em sua mente um cheiro, a casa que você passou a infância, uma emoção, uma cena… Você precisa cessar o sentimento dessa criança dentro de você. Uma relação de confiança entre vocês precisa ser construída, cumprindo promessas, estabelecendo diálogos nos quis o que está inacabado precisa ser concluído. Convide-a ao diálogo. Peça para ela vir e que fique com você. Ofereça-lhe apoio, aconchego. Acolha-a sem crítica. Ela tem vivido sozinha todo esse tempo. Fale com ela que você cresceu e que não vai permitir que ninguém mais a machuque. Permita que ela desabafe todas as mágoas. Falar em voz alta é bem interessante para você ouvir você mesma as expressões afetivas que surgem. O simples apoio o fará estabelecer o vínculo com os sentimentos ali presentes. Você vai reviver coisas que não vê há muito tempo. Os sentimentos precisam aflorar. Deixe-os fluir.
Mas você precisa perdoar a si mesmo e à criança que surge. Todos os julgamentos deveriam ser suspensos para que o amor essencial possa fluir. Um muro foi criado, não deixando que outros entrassem em seu mundo, fechando-se para o amor.
Existem várias formas de usar o perdão e você pode ficar à vontade para escolher a forma mais apropriada pra você. Eu usei um jeito simples, surgido em meu coração:
“Eu me perdôo, eu lhe perdôo. Eu me liberto, eu lhe liberto. Eu me amo, eu lhe amo.”
Fale isso várias vezes, até que sinta que surgiu um espaço dentro de você, antes ocupado com o trauma. Costumo dizer que só existem dois tipos de sentimentos: amor e não-amor, este antagônico ao sentimento de união. Deveríamos ser preenchidos apenas com o amor, mas também precisamos conhecer toda a palheta de sentimentos que existem em nosso universo. Uma vez resolvidos, um espaço se abre que é, automaticamente, preenchido com amor. Uma sensação de bem estar aparece, indicando que esta parte foi curada.
Quando seu coração se abre, você começa a ser plenamente capaz de receber em todos os níveis de sua existência. Cada perdão experienciado o levará ao alinhamento com seu verdadeiro eu, liberando o que estava preso e restaurando a sua inata capacidade criativa.
III.2.c.Vamos agora para a próxima etapa. Vamos visitar a faixa de 5 à dez anos. Esta faixa costuma ser mais poderosa, pois a mente já sabe construir suas armadilhas ou sabotagens. Veja o que a sua criança tem a lhe dizer. Divida com ela o que tanto a magoou. Uma vez detectado, faça o perdão. Não basta tomar consciência do que houve; é necessário a libertação e esta só pode ocorrer através do perdão. Perdoando você vai se transformar; sua vida vai se modificar. Você tem o direito de ser amado! É seu direito ser amparado, AGORA! Você pode pensar: “Eu decidi me abrir agora para o meu direito inato de ser amado.”
Um diálogo será formado, exatamente igual à etapa anterior. Você acolherá a sua adolescente machucada dentro de você.
III.2.d.Agora iremos acessar a faixa de 10 à 15 anos. Você já conhece o caminho e já venceu muitas barreiras até agora. Sua adolescente clama pela sua atenção.
Faça isso com todas as etapas, respeitando e tendo paciência com você e com a sua parte afetada
negligenciada de si.
IV.Conclusões:
Estudiosos da criatura humana, libertando-se dos controles das teses freudianas, ampliaram os horizontes de compreensão em torno de complexos fenômenos, capazes de elucidar problemas profundos de personalidade. Muitos espaços foram abertos na formulação de conceitos que nos libertam dos paradigmas acadêmicos. Corajosos companheiros de jornada se preocuparam em ir além dos padrões estabelecidos. As teorias que pretendiam reduzir a consciência intuitiva a um epifenômeno de vida efêmera foram sendo superados por pesquisas científicas, nas áreas da neurociência, psicofísica, campos eletromagnéticos e outros, ampliando assim nosso esquema de interpretação.
Os avanços da teoria quântica, a relatividade do tempo e do espaço, abriram caminho para perspectivas psicológicas antes sequer sonhadas, tendo em vista o conceito de vir-a-ser. A vida é uma passagem da desarmonia para a harmonia, da desordem para a ordem, da multiplicidade para a unidade. A Psicologia persegue este objetivo levando o homem a reencontrar o seu verdadeiro Self, caminho da integração de si mesmo. Esta tarefa grandiosa cabe à moderna Psicologia e aos seus corajosos pesquisadores, que inicia um período de real compreensão da criatura como ser indestrutível, fadado à felicidade.
Esta técnica constitui uma forma auxiliar de fazer a pessoa ter um encontro consigo mesma e poder “curar” as partes desintegradas de si mesmo. Uma viagem que pode ser dolorosa no início, mas que restaura o amor inerente em cada um de nós. O que posso desejar aqueles que a farão, é uma boa jornada, com confiança de que vocês farão parte da construção de um mundo melhor, uma vez que a sua cura abrange em muito a cura de todos à sua volta. Mãos à obra! Já não há mais tempo para delongas. O mundo precisa de uma faxina e esta terá que começar por nós mesmos.
Deixo, desde já, o meu amor para aqueles que enfrentam, ou estão enfrentando, as suas verdades. Deixo o meu conforto e acolhimento, pois compreendo a luta, mas também percebo e assisto a vitória. Seja bem vindo ao mundo dos inquietos, dos que querem ousar mudar o mundo!

Gostaria de dedicar este trabalho a duas pessoas que me inspiraram e estiveram comigo durante todo o percurso: Dr. Sérgio Henrique Garcia, meu osteopata, que identificou o nódulo de dor e o associou a alguma experiência dolorosa, graças a seu método revolucionário de trabalhar as criaturas; e ao Micheal, que despertou em mim novamente o verdadeiro amor, me acompanhando, mesmo de longe, em todas as madrugadas, com suas palavras amorosas. Desejo, a estes dois seres iluminados, muita Luz para poder iluminar mais ainda aqueles que vivem na escuridão. A vocês, meu muito obrigada.
Desenvolvimento da técnica “Fazendo as pazes com o seu passado”
Tereza Erthal
I.Introdução:
Aquilo que nos fez sofrer no passado, pode se arrastar no presente e atravancar nosso progresso futuro. É como se a perpetuação dessa sofreguidão criasse uma rede onde tudo convergisse para a nossa dor. Ressentimentos impedem de vermos os prazeres da vida e as dores da alma vão se localizando no corpo e deixando suas marcas através da doença. Isto não significa que o passado nos determina, mas que o passado inacabado, torna-se sempre presente, atuando sobre nós como uma influência nefasta. É mister tomarmos consciência disso para que possamos agir em nosso proveito.
Tem sido provado que a capacidade de desenvolver o perdão faz com que as pessoas vivam bem mais e com mais qualidade de vida. Mas o problema em perdoar está em confundir o perdão com conciliação ou aproximação como velhos amigos, quando a pessoa a ser perdoada era um algoz. Mas não se trata de fazer as pazes com ela e esquecer o que foi feito. O que o perdão significa é um novo olhar para a situação, uma ressignificação. A situação é vista de uma nova forma. O passado factual não pode ser mudado, mas quando damos um novo significado a ele, tudo muda. Libertamos a pessoa e a nossa parte na história. A libertação, através do perdão, ocupou um lugar importante n ciência, embora alguns ainda a vêem pelo aspecto religioso. Muitas doenças já foram estudadas ( alergias, problemas cardiovasculares, gastrites, fibromialgia, lombalgia, enxaquecas e outros), indicando que elas são o resultado de algo inacabado que grita por atenção. Estudos vem colaborar para essas afirmações- Hope College, em Michigan, pela psicóloga Charlotte Van Oyen Witvliet, Stanford com Fred Luskin que criou um projeto para o perdão, Robert Enright da Universidade de Minessota que criou o Instituto Internacional do perdão…, são alguns exemplos desse avanço. Existe um poder terapêutico no perdão.
“Não perdoar é como pegar um carvão em brasa para jogar no outro: você, com certeza, será queimado.” Buda
Portanto, nesse trabalho, estamos focados na libertação de parte do eu que ficou aprisionado num passado doloroso. Trazemos este passado para o agora e ressignificamos as partes. O perdão parece finalizar a compreensão, alterando o presente. Como Sartre nos disse, chega a hora em que temos que escolher entre dois caminhos: ou continuamos continuadores passivos da nossa história, ou a ultrapassamos, criando o nosso próprio roteiro. Qual seria a sua escolha?

II. Compreendendo a relação da consciência com as doenças:
Experienciamos o mundo através da consciência. Trata-se de um estado de captação que nos leva a agir de uma forma peculiar. Na tentativa de preencher o seu vazio, a consciência se volta para os fenômenos do mundo através dos sentidos. Pode captar o fenômeno pela imaginação, pela audição, visão, etc. Também sabemos que existem várias formas de consciência. Sartre definia dois modos de consciência ( irreflexiva e reflexiva), bem definidas por Descartes. A primeira é irracional, passiva, irreflexiva e, portanto, sem qualquer julgamento sobre o que é percebido. Digamos que podemos entendê-la agora como um modo que inclua o que é instintual, isto é, um modo de consciência mais baixo, ligado às sensações. Na consciência de segundo grau ou reflexiva, já existe um eu que reflete e julga. Nesses casos, as atividades mentais são necessárias para que ela possa existir. Por mente denomino o conjunto das faculdades intelectivas do homem, a função da personalidade que Jung chama de pensamento e os psicólogos denominam intelecto. A mente dá ao homem o poder de pensar, raciocinar e tomar conhecimento do que é percebido por meio dos sentidos. É o que dá ao homem a condição de ser consciente de si. A mente é impedida de ser a grande mediadora entre o mundo subjetivo e o mundo objetivo, porque é o único aspecto da personalidade que tem uma natureza dupla: o pensamento concreto e o pensamento abstrato. Entretanto, o homem, na maioria dos casos, usa apenas a parte exterior da mente, desenvolvendo a mente o pensamento concreto, que o impede de perceber as idéias intuitivas. Em um patamar mais alto estaria a mente abstrata, com suas análises e reflexões abrangentes, descentralizadas. Entre as duas parece existir um outro modo de consciência, a emocional, que em vez da forma de captação da realidade se processar apenas pelos cinco sentidos, constitui outra forma de apreensão. Se a primeira é irreflexiva, a segunda poderia ser vista como pré-reflexiva, indicando que nela existe a capacidade potencial de reflexão. Esta consciência emocional pode variar entre a impulsividade, apegos e sentimentos menos elaborados de um lado, até as aspirações mais altas e sentimentos elevados, buscando o bem geral, de outro. O homem emocionalmente maduro possui a capacidade de identificação, empatia ou faculdade de dar. Aprende a superar o egoísmo, os apegos e toda a forma de possessividade, subestimando-os pelo amor altruístico e incondicional.
Assim, podemos falar que existem quatro modos de consciência: sensorial, emocional, mental e espiritual ou consciência intuitiva. As três primeiras, quando integradas, levam ao desenvolvimento da autoconsciência, próprio da personalidade que aprendeu a se conhecer, a cultivar atitudes que lhe faltam, a construir um caráter. A autoconsciência evolui para uma consciência intuitiva ou espiritual, em que há uma transferência da consciência pessoal para a impessoal, na qual há equanimidade ( não há predomínio nem do prazer, nem da dor),em que há o cultivo de felicidade pela confiança interna, em que a paz transcende à racionalização. É pela intuição que tocamos na esfera superior e compreendemos o sentido.
O mundo da intuição é o mundo do significante e do significado. Se a mente nos ajuda a compreender o significado da origem dos acontecimentos, a intuição nos devolve a compreensão das finalidades. No modo intuitivo de consciência há sensibilidade quanto às possibilidades novas que as coisas possam oferecer. Na passagem da consciência mental para a intuitiva ocorre o sofrimento decorrente da separação temporal que tem de passar para transcender. O recolhimento vira uma busca, não como fuga, mas como um sentido. É neste ponto que o homem descobre não estar sozinho. A consciência intuitiva é, na verdade, uma consciência grupal, na qual o homem se percebe fazendo parte de um todo. É a verdadeira consciência, da qual as outras são apenas reflexos imperfeitos. A “ voz da consciência” é uma voz transcendente. É ela quem indica o sentido, tantas vezes procurado e vivido como vazio.
Se ficarmos no plano ôntico, da imanência psicológica ou a esfera circunscrita da pessoa, a consciência intuitiva não pode ser analisada. No entanto, assim que nos transpusermos para uma dimensão ontológica, ela deixa de ser problema, passando a ser um elemento existencial, um atributo da existência humana. Vemo-nos jogados em um mundo no qual os objetos parecem brilhar, como se fossem iluminados por dentro. Essa luz é o “insight”. Inspirar é levar o ar pra dentro, um fluir natural dos sentimentos, através da mente.
A busca para atingir esse modo de consciência é longa e dolorosa. Exige disciplina, intenção e uma crença inabalável na direção pretendida. Quando a consciência espiritual é tocada, dois fenômenos da consciência ocorrem: amor e arte. No caminho para o amor, a inspiração cresce; no caminho para a arte, nasce a criação.
Pelo que já foi dito, podemos dizer que vivemos numa consciência tridimensional onde há uma forte crença nas limitações e deficiências colocadas nas pessoas e nas condições do meio. Uma luta enorme é travada, permeada por um profundo medo, originando um extremo cansaço que permeia as sociedades. A grande maioria das pessoas não está em contato com as suas habilidades, isto é, a sua capacidade natural e ilimitada de criar. Vive-se a ilusão de estar sozinho e separado, sem apreciar a singularidade individual do Universo. O tempo é a maior ilusão e, como uma teia, prende os desavisados.
Mas a consciência tem evoluído para a 4D, que nos leva a sentir que fazemos parte de algo maior que nós. Não há sensação de estar só. O que existe é uma consciência das energias ao redor e o indivíduo se abre para o apoio que existe à sua disposição. Começa a entender e vivenciar o seu lugar dentro de algo bem maior (Consciência Universal) e experienciar uma orientação mais intuitiva.
A consciência 5D passa por um estado de Amor incondicional, um estado de unidade com toda a consciência de vida, uma experiência direta de ser uno com a Consciência Universal, além de um alinhamento consciente com o amor puro de sua essência.
Passar de um estado de consciência 3D para uma de 4D ou 5D é excitante e tem um grande papel na transformação. Quando se toma a atitude de dar início ao despertar, você começa a assumir o seu lugar na vida. O estar desperto leva a um estado diferente de consciência (vibração diferente das células). É a frequência do amor que não apenas nos muda, como afeta as pessoas à nossa volta e todas as coisas vivas. As mudanças que virão, exigirão que você esteja mais consciente do papel que representa agora.
Em função de tudo isso, desenvolvi uma técnica capaz de acessar o modo de consciência que ficamos presos no passado. Este aprisionamento se deve a alguma experiência traumática que fomos submetidos e, sem capacidade de transcender a dor, empurramos para debaixo do tapete ou fingimos que nada aconteceu. Desta forma, a experiência passa desapercebida ( atitude de má fé sartriana), mas não as dores que foram geradas e que ainda permanecem. A impressão é de que estamos sendo atacados, que esta dor não nos pertence, que a vida está sendo injusta. Contudo, estas dores somos nós gritando em algum lugar do passado/presente, querendo a atenção para poder partir.
Passei isso há algumas semanas atrás. Tive um problema na lombar que evoluiu para dores na ciática. Que dores fortes! Em muitos momentos desejei a morte, pois não conseguia dormir (ficar deitada era impossível) ou sentar para ler ou algo assim. As dores dilacerantes me faziam ficar acordada por toda a noite, andando pela casa, já que apenas andando dava um pequeno alívio. Chorava, brigava com Deus, tinha raiva. Nada adiantava, nem mesmo todo o tratamento medicamentoso e fisioterápico. Parecia que eu estava abandonada e que nada iria acabar com o meu sofrimento. Lembrei-me de um filme de nome “ A Guitarra”, de origem argentina, no qual a protagonista, em um só tempo, descobre um câncer terminal, perde o noivo e o emprego, no dia da revelação. Desesperada e sem rumo, retira todo o seu dinheiro e começa uma jornada de coisas que sempre quis e não podia possuir, e passa a viver o momento presente apenas. Viver o agora na sua mais concreta forma. Depois de tantas experiências, descobre que já se passaram dois meses e nada tinha acontecido à sua saúde. Visitando os médicos, descobre que o mal que a invadia, havia desaparecido. Questionando o porquê, foi-lhe dito que o mal que nos acomete tem um meio propício pra se alimentar. Quando mudamos este meio, o tumor se sente fora do “habitat” que o construiu e perde suas forças.
Outro exemplo que me ajudou foi a palestra de uma neurocientista, há uns anos atrás, que foi acometida de um derrame poucos minutos antes de sair de casa para o hospital em que trabalhava. Sabendo que o tumor que mantinha no cérebro era inoperável, primeiro se desesperou. Mais tarde, vendo que o desespero em nada contribuía para um estado melhor, começou a conversar com ele, baseada no fato de que se construiu, esta coisa lhe pertence, faz parte de si. Diariamente, estabelecia um diálogo com ele da seguinte maneira: “ sei que fui eu quem o criou; sei que você não é um invasor como supunha; você faz parte de mim. Portanto, precisamos fazer as pazes e conviver da melhor forma. Seja bem vindo! Estamos no mesmo barco. Não pretendo lhe expulsar, mas aceitá-lo como é. Se eu o fiz, cabe a mim entender e perdoar a você e a mim mesma por esta etapa.” E o diálogo ia ficando mais íntimo entre eles. O resultado? O tumor sumiu! O que o fez desaparecer? O meio no qual foi construído era diferente do meio no qual estava sendo compreendido. Exatamente igual a experiência do filme, também verídica.
Pensando em tudo isso, e com todo o tempo do mundo na madrugada, achei por bem entender o que a dor queria significar. Se antes brigava e sofria ainda mais, agora tinha jogado a toalha e iria tentar me harmonizar com tudo. Comecei estabelecendo um diálogo com a dor; ela me sinalizava algo que não sabia. Havia algum medo ali que precisava descobrir. Vi que estava completamente sozinha, física e emocionalmente. Era uma sensação bastante dolorosa, mas continuei. Pretendia partir de um lugar de desespero para chegar a um lugar de cura física e emocional. Sabia que a melhor maneira de vencer o medo era o movimento consciente na direção do sentimento e da respiração. Fiquei consciente do sentimento de medo, à medida que avançava. Quando fazemos isso, o medo se dissipa. O medo não pode nos machucar. É somente um sentimento criado por nós diante da baixa estima que desenvolvemos.
Há feridas que carregamos no coração que precisam ser curadas. Muitas destas feridas estão conosco há muitos anos. As feridas abertas nos mantém separados do amor que é direito nosso vivenciar nesta vida. A abertura para este novo aspecto do amor produz em si a cura e uma nova sensação de bem estar dentro de nós.
Aprendi que era preciso ser paciente comigo mesma enquanto empreendia esta jornada. Cada experiência que eu fiz neste período serviu para eu estreitar meus laços comigo mesma. Tais alinhamentos me ajudaram a desenvolver-me no meu Self e acelerar a nova consciência da vida e verdade. Deste contato íntimo com as minhas dores e medos, entendi que precisava de um método para eu não me perder na experiência. Depois de estabelecer este contato com a dor, comecei a entender que estava passando por uma revolução emocional e precisava saber quais fases da minha vida eu teria ficado presa em alguma sensação. Comecei a técnica…
III.A técnica propriamente dita:
Em primeiro lugar, achei por bem visitar todas as minhas idades e a dividi em períodos de cinco em cinco anos (0-5;5-10;10-15,etc). A cada etapa, deixava minha mente livre pra seguir as emoções que acompanhavam as lembranças engavetadas. E, claro, elas existiam. Não se trata de recalque, como Freud nos disse. Acredito que o homem é um ser autoconsciente, capaz de tomar consciência de si, seja qual for o problema enfrentado. O que ele precisa é disciplina e vontade, sem julgar nada do que for ver.
A nossa história pode nos ajudar a dar os primeiros passos em nossa jornada, mas chega o momento em que nós temos que deixar a história pra trás. A cura somente pode ser alcançada se for descolada da história. É preciso deixar de ser vítima para assumir a responsabilidade pelo papel representado para ter a experiência. Identificamo-nos com a nossa história, mas somos muito mais do que ela. É preciso coragem pra abrir mão da história e dar um salto em direção ao Self. Precisamos deixar a história limitada tridimencional, que acreditamos ser por pura autossabotagem ou má fé, para atingir a verdadeira liberdade dentro de nós. O processo de autocura é amor, paciência e compaixão por nós mesmos. Devemos ter paciência com os erros que cometemos e perdoarmos enquanto vivemos o nosso dia a dia.
Primeiro devemos mudar conscientemente e estar dispostos a participar das mudanças dentro de nós. Temos que entrar em contato com a nossa criança interior, presa no emaranhado de sentimentos por nós traçados. Esta criança interior guarda os traumas das vivências passadas. Quando apoiar a criança, você vai começar a se conectar com todos os sentimentos que estão ali. Alguns destes sentimentos são profundos. Permita-se sentir e lembrá-lo do que ela está recordando e sentindo algo que aconteceu há muito tempo, e de que ela está bastante segura com você agora. Apenas continue apoiando e deixe os sentimentos aflorarem. Pode ser mais de um trauma e, por esta razão, visitar os períodos mencionados pode ser de grande valia. Existe um processo de ressuscitar a criança que habita em nós. Que lembranças surgem entre 0 e 5 anos de idade? Não force nada, apenas deixe fluir. Virão imagens, diálogos, cenas que marcaram alguma idade desta fase. Acesse o sentimento da criança dentro de você. Estabeleça confiança, cumprindo promessas não feitas, acolhendo, dedicando atenção que ela pede. Converse com ela e peça para ela vir estar com você. Estabeleça um diálogo entre vocês. Fale que você cresceu e que não vai deixar que ninguém a machuque mais. Deixe as experiências surgirem sem qualquer censura. Depois comece a perdoar. Na madrugada me surgiu uma forma básica, e sei que devem existir outras, cabendo a cada um expressar o que acha melhor. Eu fiz assim: “Eu me perdôo, eu te perdôo; eu me liberto, eu te liberto; eu me amo e eu te amo. Somos um só nesta vivência.”É impressionante como aparece um sentimento confortador. Abrindo mão daquilo que nos preenchia no medo, aparece espaço que é preenchido com o amor. Na verdade, só existem dois sentimentos básicos: amor e não amor, este definindo raiva, ódio, inveja, ciúme e todas as formas não amorosas de se relacionar. Uma vez que os sentimentos negativos saem, vão dando espaço de sobra e a energia natural do amor retorna ao seu lugar. É a luz preenchendo cada cantinho do nosso ser. Fiz isso com cada fase e fui encontrando nos diálogos, os motivos que me aprisionavam. Claro que as dores tinham causa física, mas a forma como estava lidando com ela era emocional e precisava ajustar. Estava presa na tridimencionalidade quando podia saber muito mais sobre mim a partir da 4D. Foi o que fiz. As dores foram cedendo, da mesma forma que o tumor da neurocientista ou da protagonista do filme citado. Não se tratava de expulsar nada, mas aceitar tudo o que me pertencia para chegar ao miolo do meu Self.
Muitos acham que o medo aparece apenas diante de situações ruins. Esperamos o fracasso de algo, temos medo de perder o que gostamos, medo de errar, etc. No entanto, o ruim nós já conhecemos e até aceitamos. O que parece mais meter medo é o sucesso. Tememos ter que mantê-lo e não conseguirmos. Se estamos vivendo algo ruim, o que vier de bom é lucro! Mas se vivemos algo muito bom, tememos perder e aí começa a negação. Eu estava diante de uma experiência há muito desejada, mas desacreditada. Queria viver novamente o amor relacional, mas só tinha encontrado traições, mentiras, egos. Uma semana antes da crise vivida, alguém despertou minha atenção de uma forma bem diferente. Sabia que era alguém especial, de mente aberta e totalmente entregue a seus sentimentos. Foi tão forte que me remeteu aos medos mais embutidos. As dores tomaram um vulto bem maior e depois de aplicar esta técnica em mim mesma, tive “insights” espetaculares. Fiz as pazes com a Tereza criança, a adolescente e a Tereza adulta. Acolhi, ensinei, aprendi, abracei. Foram muitas emoções que vivi nestas madrugadas. Valeu à pena cada segundo!
III.1.Como fazer:
Minha sugestão é viver cada etapa por vez, por uns vinte minutos, no máximo. A respiração precisa ser controlada e uma respiração suave é requerida de forma que você mantenha a calma durante todo o tempo. Minha sugestão é utilizar a “respiração consciente” que quer dizer inspirar e expirar pela boca, sem controlar o ar. Traga toda a sua atenção para esta respiração, enquanto a mente é silenciada. Para facilitar ainda mais, sugiro a técnica do balão: inspire, pela boca, como se você fosse uma bola de inflar, enchendo toda ela, e expire esvaziando-a. Faça isso em alguns segundos, não apenas para relaxar, como também para focar no objetivo. Lembre-se de que a respiração tem ligação com o medo e a produção de pensamentos. Quanto mais calmo é o batimento cardíaco, menos produção do pensamento. Feito isso, comece a técnica. Escreva tudo ou grave a sua experiência, pois vai ser bom revisitá-la no fim. Não tenha pressa em concluir tudo. Cada um tem um tempo certo que lhe é próprio.
III.2.Aplicando a técnica:
Como indivíduo, você é solicitado agora a se abrir para você mesma, retirando todo o juízo de valor. Seu coração, em algum momento, se fechou e não permitiu que você florescesse. Você tem uma história e parte dela lhe prende em algum lugar do passado, impedindo-o de seguir em frente, rumo ao amor. Aprendeu a se julgar e, consequentemente, aos outros. Os conflitos internos gritam e constroem muros, confirmando a solidão e separação aprendidas. É necessário entender que você quer ser acolhido e cabe a você começar este processo. Saiba que uma vez enfrentado o conflito interno, uma transformação surge não só apenas em você, mas também com as pessoas que vivem à sua volta.
Esta técnica vai conectar você com você mesmo. Você vai construir uma nova relação consigo mesmo, mas par isso, terá que enfrentar seus fantasmas. A mente é extremamente limitada, totalmente baseada no medo, impedindo-o de correr riscos. São os sentimentos que o farão curar nos níveis físico, emocional e mental. Eles são a chave para as experiências. Esteja aberto para se permitir receber. O medo aparecerá, tal é o nosso condicionamento. Contudo, saiba que a melhor forma de vencer o medo é justamente o movimento consciente na direção do sentimento e da respiração. Fazendo isso, o medo se dissipa. Ele é apenas um sentimento, não podendo machucá-lo. As feridas precisam ser curadas. As feridas abertas o afastam do amor. A paciência consigo mesmo é uma condição necessária nesta jornada. À medida que for avançando na experiência, você acelerará uma nova consciência de vida.
III.2.a.Fazendo o exercício da respiração:
Para facilitar, imagine-se como uma bola de inflar. A cada inspiração, você aumenta de tamanho, enquanto na expiração, você esvazia. Respire pela boca. Fique assim alguns segundos. Isto vai acalmá-lo, além de trazer o foco para a técnica em questão. Lembre-se de que quanto mais ansiedade, mais batimento cardíaco e mais produção de pensamentos frenéticos em sua mente.
III.2.b.Trabalhando nas faixas etárias:
Para facilitar sua experiência, vamos trabalhar por faixas de idade, indicando o período no qual algumas vivências aconteceram. Sugiro de 0-5; de 5-10; de 10-15, etc, como numa escala de pesquisa. Agora entre em contato com a sua criança interior. Ela guarda os traumas acumulados. Traumas são marcas negativas que aparecem diante de situações de choque, vividas. O problema parece ser um elefante, enquanto você era apenas uma formiga. Essa criança clama para ser acordada e resolver seus conflitos. Que a impediram de criar. Acesse os sentimentos dessa criança dentro de você. Sua jornada para o Self não pode ser concluída sem essa conexão consciente com as partes desintegradas de si mesmo. Ninguém teve uma infância perfeita. Sempre existem coisas que o afetaram e que ainda o afetam até hoje. A cura começa nesse contato entre você e sua criança interior. Quando o medo e a dor são grandes o suficiente par lidar quando somos crianças, as partes infantis se dividem. Uma parece guardar a dor a sete chaves, enquanto a outra permanece no modo “sobrevivência”. O tempo foi interrompido para essa criança e, por isso, ela desconhece o adulto que você se tornou. Você precisa tomar consciência dos incidentes em sua vida que espelhem o trauma que foi tecido. Deixe fluir!
O que lhe vem à cabeça nesse período de 0 à 5 anos? O que você vê e sente? Pode aparecer em sua mente um cheiro, a casa que você passou a infância, uma emoção, uma cena… Você precisa cessar o sentimento dessa criança dentro de você. Uma relação de confiança entre vocês precisa ser construída, cumprindo promessas, estabelecendo diálogos nos quis o que está inacabado precisa ser concluído. Convide-a ao diálogo. Peça para ela vir e que fique com você. Ofereça-lhe apoio, aconchego. Acolha-a sem crítica. Ela tem vivido sozinha todo esse tempo. Fale com ela que você cresceu e que não vai permitir que ninguém mais a machuque. Permita que ela desabafe todas as mágoas. Falar em voz alta é bem interessante para você ouvir você mesma as expressões afetivas que surgem. O simples apoio o fará estabelecer o vínculo com os sentimentos ali presentes. Você vai reviver coisas que não vê há muito tempo. Os sentimentos precisam aflorar. Deixe-os fluir.
Mas você precisa perdoar a si mesmo e à criança que surge. Todos os julgamentos deveriam ser suspensos para que o amor essencial possa fluir. Um muro foi criado, não deixando que outros entrassem em seu mundo, fechando-se para o amor.
Existem várias formas de usar o perdão e você pode ficar à vontade para escolher a forma mais apropriada pra você. Eu usei um jeito simples, surgido em meu coração:
“Eu me perdôo, eu lhe perdôo. Eu me liberto, eu lhe liberto. Eu me amo, eu lhe amo.”
Fale isso várias vezes, até que sinta que surgiu um espaço dentro de você, antes ocupado com o trauma. Costumo dizer que só existem dois tipos de sentimentos: amor e não-amor, este antagônico ao sentimento de união. Deveríamos ser preenchidos apenas com o amor, mas também precisamos conhecer toda a palheta de sentimentos que existem em nosso universo. Uma vez resolvidos, um espaço se abre que é, automaticamente, preenchido com amor. Uma sensação de bem estar aparece, indicando que esta parte foi curada.
Quando seu coração se abre, você começa a ser plenamente capaz de receber em todos os níveis de sua existência. Cada perdão experienciado o levará ao alinhamento com seu verdadeiro eu, liberando o que estava preso e restaurando a sua inata capacidade criativa.
III.2.c.Vamos agora para a próxima etapa. Vamos visitar a faixa de 5 à dez anos. Esta faixa costuma ser mais poderosa, pois a mente já sabe construir suas armadilhas ou sabotagens. Veja o que a sua criança tem a lhe dizer. Divida com ela o que tanto a magoou. Uma vez detectado, faça o perdão. Não basta tomar consciência do que houve; é necessário a libertação e esta só pode ocorrer através do perdão. Perdoando você vai se transformar; sua vida vai se modificar. Você tem o direito de ser amado! É seu direito ser amparado, AGORA! Você pode pensar: “Eu decidi me abrir agora para o meu direito inato de ser amado.”
Um diálogo será formado, exatamente igual à etapa anterior. Você acolherá a sua adolescente machucada dentro de você.
III.2.d.Agora iremos acessar a faixa de 10 à 15 anos. Você já conhece o caminho e já venceu muitas barreiras até agora. Sua adolescente clama pela sua atenção.
Faça isso com todas as etapas, respeitando e tendo paciência com você e com a sua parte afetada
negligenciada de si.
IV.Conclusões:
Estudiosos da criatura humana, libertando-se dos controles das teses freudianas, ampliaram os horizontes de compreensão em torno de complexos fenômenos, capazes de elucidar problemas profundos de personalidade. Muitos espaços foram abertos na formulação de conceitos que nos libertam dos paradigmas acadêmicos. Corajosos companheiros de jornada se preocuparam em ir além dos padrões estabelecidos. As teorias que pretendiam reduzir a consciência intuitiva a um epifenômeno de vida efêmera foram sendo superados por pesquisas científicas, nas áreas da neurociência, psicofísica, campos eletromagnéticos e outros, ampliando assim nosso esquema de interpretação.
Os avanços da teoria quântica, a relatividade do tempo e do espaço, abriram caminho para perspectivas psicológicas antes sequer sonhadas, tendo em vista o conceito de vir-a-ser. A vida é uma passagem da desarmonia para a harmonia, da desordem para a ordem, da multiplicidade para a unidade. A Psicologia persegue este objetivo levando o homem a reencontrar o seu verdadeiro Self, caminho da integração de si mesmo. Esta tarefa grandiosa cabe à moderna Psicologia e aos seus corajosos pesquisadores, que inicia um período de real compreensão da criatura como ser indestrutível, fadado à felicidade.
Esta técnica constitui uma forma auxiliar de fazer a pessoa ter um encontro consigo mesma e poder “curar” as partes desintegradas de si mesmo. Uma viagem que pode ser dolorosa no início, mas que restaura o amor inerente em cada um de nós. O que posso desejar aqueles que a farão, é uma boa jornada, com confiança de que vocês farão parte da construção de um mundo melhor, uma vez que a sua cura abrange em muito a cura de todos à sua volta. Mãos à obra! Já não há mais tempo para delongas. O mundo precisa de uma faxina e esta terá que começar por nós mesmos.
Deixo, desde já, o meu amor para aqueles que enfrentam, ou estão enfrentando, as suas verdades. Deixo o meu conforto e acolhimento, pois compreendo a luta, mas também percebo e assisto a vitória. Seja bem vindo ao mundo dos inquietos, dos que querem ousar mudar o mundo!

Gostaria de dedicar este trabalho a duas pessoas que me inspiraram e estiveram comigo durante todo o percurso: Dr. Sérgio Henrique Garcia, meu osteopata, que identificou o nódulo de dor e o associou a alguma experiência dolorosa, graças a seu método revolucionário de trabalhar as criaturas; e ao Micheal, que despertou em mim novamente o verdadeiro amor, me acompanhando, mesmo de longe, em todas as madrugadas, com suas palavras amorosas. Desejo, a estes dois seres iluminados, muita Luz para poder iluminar mais ainda aqueles que vivem na escuridão. A vocês, meu muito obrigada.

A apreciação da arte e da beleza
Tereza Erthal

A área de atuação da estética mostra-se bem ampla, pois abarca a produção do belo, tanto na natureza quanto na arte. Mas, o território da estética é particularmente problemático pelo fato de seu objeto não ser definido com muita clareza. Deve-se limitar ao campo da arte ou abranger também a beleza natural? Cabem-lhes vivências muito diversas.
Quais os fundamentos que regem o belo e a arte? A situação do homem aponta o enraizamento na singularidade da vida e na sua historicidade. O homem tem um modo próprio de participar da realidade e é este modo peculiar que se manifesta na arte e na sua compreensão da beleza. A arte e a beleza, se não forem autênticas, isto é, se repetidas e vazias, podem parecer robotizadas. A nova geração se interessa por arte, de fato? Consegue identificar realmente o que seria o belo? O adolescente está muitas vezes mais à vontade diante da tela do computador do que com um livro entre as mãos. Esta tem sido a sua linguagem. Ora, o ser humano é criativo desde a mais tenra idade, independente do setor de atividade que se propõe a criar. Cabe a ele pensar ininterruptamente nas suas múltiplas implicações e nas variadas modalidades de desdobramento. Pela criatividade, cabe a ele acrescentar ao mundo o que a natureza, por si mesma, não lhe fornece. Cria aquilo que precisa sem qualquer potencialidade embutida.
Preferir o belo ao feio passou a fazer parte da condição humana, tão natural quanto a busca da saúde ou a evitação da doença. Isto não impede que o feio possa comparecer na arte. Entretanto, hoje, ao ouvirmos segmentos da cultura se posicionando a favor de uma maior amplitude do conceito de arte, anulam-se os processos qualitativos, na medida em que, simplesmente, considera-se que tudo seja arte ou que tudo seja belo. Parece uma justificativa, como defesa em causa própria, dos falsos artistas que parecem querer apenas se beneficiar por ela. A sociedade está em crise, vivendo uma espécie de autoengano, por simplesmente negar os critérios que distinguem o artístico do não artístico. Numa sociedade na qual os indivíduos precisam reagir da mesma maneira, o não cumprimento disso leva a pessoa a não corresponder à expectativa dos que a cercam, fato que demonstra o aniquilamento do pensamento independente. E, sem a consciência disso, a pessoa imagina-se livre em sua criação. Embora livre em condição, o arbítrio humano é facilmente manipulável pelos que tem o dom da persuasão.
Sabemos que os valores tendem a ser modificados de uma época para outra. Onde um indivíduo vê o belo, outro talvez o enxergue como feio. E o mesmo homem pode modificar seu juízo estético, vindo a apreciar o que antes repudiava. A vivência estética é tingida de subjetividade e de oscilação valorativa. Assim, o feio desfruta de um grau de legitimidade tão espontâneo quanto o belo. E qual seria o critério deste valor? Na contemporaneidade o que parece predominar é a utilidade como referencial comparativo. Cada vez mais o homem é mensurado a partir de sua utilidade. Cada cultura cristaliza uma espécie de hierarquia de valores e é desta forma que constrói a sua própria coesão. Na Idade Média, por exemplo, o assunto básico na arte era o religioso. A Virgem Maria constituiu a transmissão máxima da beleza possível da mulher.
É possível que o plano estético se choque com o da lógica, já que está em constante contato com a beleza. É possível que nossa apreciação pelo belo seja embotada pela acomodação pessoal, uma espécie de conformismo aos ditadores do consumo. A mídia conduz ao anestesiamento do senso crítico, na maior parte das vezes. Então a arte está ausente de critério? A própria escolha pela ausência de critério não deixa de ser uma forma de critério. O belo e o artístico pertencem à categoria do “ bem feito” .A arte seria bem feita se a obra obedecesse às intenções do seu autor. Comandado por uma massa generalizada, abriria espaço para o que se chamaria de imperfeição. O indivíduo anular-se-ia perante uma coletividade que tudo assimila e ao mesmo tempo determina, abdicando de sua singularidade.
Embora a arte e a beleza careçam de definições unívocas, isto não autoriza uma definição particular de cada um. Ao dizer que tudo é arte e tudo é belo, seria o mesmo que dizer que nada é belo ou é arte, pois são vazias de sentido. A experiência estética não é mera fantasia; é requerido, ao contrário, lucidez para a apreensão da beleza. A dimensão social, o movimento da história e a própria subjetividade devem ser consideradas na compreensão de uma obra de arte.
O gosto estético deve ser descrito de dois modos: empírico subjetivo e conceitual objetivo. Embora participe dos dois, não se funde a nenhum deles. A beleza pertence ao rol das qualidades, uma exigência do humano. Tomando a compreensão estética como traço da condição humana, ou seja, algo desenvolvido, precisamos realçar a existência em sua forma valorativa, sempre destinada a se modificar de acordo com o contexto histórico. Veja o conceito de genialidade, por exemplo. A genialidade não é democrática, mas se restringe a pouquíssimos escolhidos. Nem sempre uma sociedade reconhece um gênio, dando-lhe o real valor. O gênio de Proust, entre outros, é a totalidade de suas obras, não algo inato, como alguns acreditam. Sua genialidade repousa no esforço desenvolvido em cada texto criado por ele. Nada lhe foi dado de forma gratuita. E o contra senso é demonstrado no fato de que a mesma terra que gerou artistas como Rembrandt e Van Gogh, também produziu o Big Brother! O pior pecado da cultura é a mediocridade.
As coisas não são nem boas ou ruins em si mesmas, como muitos querem acreditar. Tudo vai depender do uso que dela se faz. A cultura ocidental, que mesmo antes da globalização já havia se tornado ampla em sua magnitude, está em crise. Cada vez mais as culturas tendem a se igualar, moldadas pelos padrões vindos da cultura de massa. É uma crise de sentido! O exótico passa a ser incluído na dignidade da norma.
É necessário resgatar a singularidade existente em todos nós. Somos criadores de nós mesmos e, por isso, somos a nossa principal obra de arte! Talvez seja preciso reeducar o nosso olhar para, a partir dele, enxergar a verdadeira realidade em toda a sua tonalidade, assumindo a responsabilidade da escolha consciente.

Corações partidos

Fui convidada para discorrer sobre o tema “corações partidos”, mas minhas idéias não foram bem apresentadas, de forma que decidi expô-las aqui, aos interessados no tema. O interesse era enumerar as possíveis saídas para as pessoas que vivem a dor da separação e não conseguem curá-la. Antes, porém, de focar nas práticas de solução, precisamos entender como o problema se forma.
A dor do coração partido é uma metáfora usada para definir um término difícil, quase insuportável. De fato, o sentimento de perda pode ser vivido tão intensamente que transforma este período em uma sensação física, muitas vezes dilacerante. Insônia, perda de apetite, dores no estômago, tensão muscular e outros sintomas, são algumas das reações de um organismo preso a uma forte perda. Não há remédio que faça a dor desaparecer, fazendo-se necessário encarar o problema de frente. na lista de antídotos para o alívio dessa dor estão o tempo, o apoio social, as atividades relaxantes, novos projetos, etc.
Normalmente, as pessoas criam muita expectativa de encontrar a sua “metade”; alguém que as faça sentir completas. Músicas, novelas, romances, eternizam essa idéia romântica distorcida, de que existe uma versão humana que preencha o vazio construído ao longo de sua existência. Buscam, desta forma, seus complementos. Contudo, na verdade, o caminho deveria ser outro: se estou inteira, não preciso de complemento e sim, suplemento.
Por que esta busca por inteireza? Tudo se resume numa palavra: estima. Construímos uma auto imagem e nela depositamos uma certa quantidade de afeto, denominada autoestima. Pessoas com boa autoestima costumam se aproximar e atrair pessoas que estejam na mesma condição. Procuram o autoconhecimento, a alegria da troca, sem a expectativa de que cabe ao outro fazer a sua felicidade acontecer; elas a fazem. As de baixa autoestima, ao contrário, atraem situações de igual teor energético e reforçam o vazio, chamado desamparo, a cada escolha que fazem. A procura do outro como responsável pela sua felicidade e inteireza faz-se presente constantemente. A expectativa cresce e o outro precisa responder a todos os paéis que lhe faltam: pai/mãe, amigo(a), etc. A relação se mantém nesse prisma e, claro, é fadada ao fracasso. Quando advém o término, um pedaço de si vai junto e o luto traz dores, acompanhadas da sensação de fracasso, o que aumenta ainda mais o desamparo. Tudo porque é ensinado que o amor está fora e precisa ser encontrado. E se eu disser que o amor pertence à pessoa e que o outro apenas o desperta? Somos o amor que buscamos no outro pela própria incapacidade de enxergarmos que o outro apenas aponta pra ele.
Mas por que não vemos isso? Porque voltamos o nosso olhar pra fora, fazendo um escape de nós mesmos enquanto consciência. Quando o autoconhecimento se amplia, e com ele a autoestima, podemos compreender melhor esta visão. Apaixonamo-nos por nós mesmos e, nesse momento, o outro é contemplado. Resulta daí uma relação saudável e suplementar. Caso este relacionamento finde, não há perda do eu. O luto natural de uma perda é vivido sem depressões ou dores de qualquer espécie. A isso eu chamo de inteireza. Esta pessoa tanto pode viver sozinha, já que a sua companhia lhe é agradável, como pode partilhar com alguém, sem o perigo de se perder no outro.
Mas como podemos fazer para sanar as dores, no caso de baixa autoestima? Existe um caminho que ajude? Primeiro a pessoa precisa se olhar e verificar o que está fazendo com as suas escolhas. Tem cuidado de si? Tem entrado em contato com as suas carências? A busca pelo autoconhecimento é, então, a primeira coisa que deve fazer para que a aprendizagem da situação se estabeleça.
Normalmente, quando a relação se esgota, as pessoas ficam lembrando dos momentos maravilhosos que passou com o parceiro. estudos publicados no Journal of Experimental Psychology apontam que encarar o ex sob uma ótica negativa pode ser bem mais interessante, para se recuperar desta fase. Não se trata de desenvolver uma raiva pela pessoa, mas reavaliar o relacionamento, examinando a sua parte nele. O foco no que foi ruim traz uma visão mais realista para que a pessoa perceba que não há motivo para querer voltar. Percebe as muitas idealizações projetadas e isso é de grande valia. Toda a rotina da relação, ao invés de ser endeusada, ajuda a vê-l como algo a ser derrubado. Mas tem que se ter cuidado para não trocar o amor pela raiva. De nada adianta resolver externamente, se no interior a pessoa se mantém ligada pela raiva. Olhar o que foi negativo é apenas uma forma de não embelezar algo que já não é mais belo, que não serve mais para ambos. Usar o negativo para minimizar o sofrimento é libertador. Claro que se a pessoa começou a se gostar mais, o tempo de duração da sofreguidão costuma ser bem menor.
Fazer algo positivo também pode ajudar. Atividades prazerosas e boas companhias retiram o olhar da auto piedade. Na inação o pensamento vai para a dor!
O tempo também é de grande valia. Tudo nessa vida passa e é preciso ter consciência disso. Tentar preencher este vazio imediatamente com outra pessoa, traz todos os problemas anteriores para a nova relação e, o que é pior, não soma nenhuma aprendizagem.É necessário se desintoxicar! O tempo é o melhor indicador de que a dor está diminuindo, libertando o seu dono. Contudo, se esta sofreguidão perdurar, a ajuda profissional pode ajudar a libertá-lo.
Concluindo, a dor do “coração partido” existe, traz consequências físicas e psicológicas, mas pode ser ultrapassada rapidamente se o foco for a restauração de si, enquanto um ser completo. A consciência de que o amor está dentro e que não precisa fazer do outro o instrumento da sua inteireza, é fundamental. Portanto, a melhor saída é o aumento da autoestima iniciado pelo autoconhecimento. As escolhas passam a ser mais conscientes e a opção por si transcende a ideia mágica de que alguém a preencherá.

Cada relacionamento é um espelho que revela sua própria identidade.

Tereza Erthal

 

Cada aspecto da personalidade se reflete nas escolhas que fazemos na vida. Tornamo-nos alguém porque estabelecemos relações e nessas relações, espelhamos parte de nós mesmos. Tomemos como exemplo a claustrofobia: transtorno que significa medo, ou mal estar, diante de lugares fechados, sentidos como opressores. O que o indivíduo quer é restaurar sua liberdade, mas se vê impedido, aparentemente por algo externo. Incapaz de se ver com condições de restaurá-la, foge das situações que tanto o ameaçam. Contudo, de acordo com a sua ótica, suas escolhas estão permeadas por seus medos. Escolhem pessoas que reforçam, muitas vezes, tal realidade. Uma relação claustrofóbica é aquela cujo(a) parceiro(a) é um opressor e assim a mesma situação é vivida, reforçando a atual visão. É porque somos uma estrutura cujas partes se integram sempre. Assim, tal pessoa deseja ser livre, mas teme a própria liberdade.

Evidentemente que não é com o conhecimento puramente racional que essa situação termina; é preciso vivenciá-la. Contudo, a conscientização da dificuldade criada faz a pessoa a faz explorar áreas jamais antes visualizadas. O que ela faria com uma relação livre de opressão? Talvez não a suportasse. Isso porque o repertório de respostas apenas se volta para este foco. Enquanto tratarmos somente da situação externa, não eliminaremos o real problema: o medo à liberdade.

Em geral, “o homem se tornou um escravo, embora se julgue um senhor.” ( E. Fromm). Significa que está escravizado a máximas falsas que parecem levar o foco da sua vida para este mesmo lugar. Todos devem assumir sua existência e a responsabilidade dos seus atos e isso é parte da interpretação do eu. A pessoa não é apenas feita pela História, mas também é ela que a faz. E isso tem a ver com as relações. O indivíduo não pode viver sem uma certa cooperação de outros, pois a menos que sua vida tenha significado e rumo, será esmagado pela sua insignificância pessoal. Não será capaz de se relacionar com nenhum sistema que proporcione um significado e um rumo à sua vida, ficará cheio de dualidades e isso o paralisará na sua capacidade de agir, de viver.

Caso o indivíduo ainda não tenha cortado o cordão umbilical que o prende ao mundo externo, ele não é totalmente livre. Esses vínculos dão-lhe segurança e  a sensação de pertencer a algum lugar.Se a criança cresce estimulada a romper tais vínculos, ela procura a liberdade e a independência. No contínuo segurança-desenvolvimento, ruma ao risco do crescimento, já que conquistou a sua segurança. O oposto disso é a solidão- a submissão é o modo de evitar o isolamento e a ansiedade. Mas ainda existe  outro modo: o vínculo espontâneo do homem com a Natureza, uma relação que liga o indivíduo ao mundo, sem eliminar sua individualidade.

Se cada passo em direção à separação e à individuação fossem acompanhados de um crescimento paralelo do eu, o desenvolvimento da criança seria harmonioso. Mas isso não acontece. O crescimento do eu é obstado por diversas razões individuais e sociais. O hiato entre eles causa um sentimento intolerável de isolamento e impotência que, por sua vez, leva a mecanismos psíquicos conforme julga. A existência humana e a liberdade são inseparáveis- liberdade de ( não para), liberdade de determinação de suas ações.

Desde o princípio da existência o indivíduo se vê confrontado com a necessidade de escolha entre diversas linhas de ação. Isso nos leva ao mito bíblico da expulsão do homem do Paraíso. Agir contra o comando da autoridade, cometendo pecado, é o primeiro ato de liberdade, o primeiro ato humano. O pecado, em seu aspecto formal, é a ação contra o comando de Deus; em seu aspecto material, é o ato de comer da árvore da sabedoria. O ato de desobediência como um ato de liberdade marca o nascimento da razão. Mas  a recém conquistada liberdade parece-lhe como uma maldição; ele está livre do doce cativeiro do Paraíso, mas não está livre para governar-se, para realizar a sua individualidade.

O crescimento da liberdade humana sofre o mesmo aspecto dialético do crescimento individual. É um processo vigoroso de integração, domínio da Natureza, poderio da razão humana e solidariedade. Mas, por outro lado, nasce na pessoa um crescente isolamento, uma aumentada insegurança e uma insuportável impotência.

Só há uma solução possível e produtiva para o relacionamento do indivíduo com o mundo: sua solidariedade. Atua com todos os homens em sua atividade e trabalho espontâneo, que estabelece um elo cada vez maior com o mundo, não por meio de vínculos primários, mas como indivíduo livre e independente.

Em termos gerais, o processo social ao determinar o modo de vida do indivíduo, isto é, sem relação com os outros e com o trabalho, molda a estrutura do seu caráter; novas ideologias (religião, filosofia e política) resultam dessa estrutura do caráter assim modificada e exercem um atrativo sobre ela, intensificando-a, satisfazendo-a e estabilizando-a. Os novos traços de caráter tornam-se fatores úteis na ulterior evolução econômica e influenciam o processo social.

O indivíduo moderno se encontra em uma situação em que muito do que ele pensa e diz não adquire da capacidade de pensar originalmente, por si mesmo. Esta é a única forma que pode dar conteúdo à sua alegação de que ninguém pode interferir na manifestação de suas idéias.

Estamos fascinados pelo aumento da liberdade de poderes fora de nós e cegos para as nossas restrições, compulsões e medos interiores, que tendem a solapar o significado das vitórias alcançadas pela liberdade contra seus inimigos tradicionais. Porém, temos que obter um novo tipo de liberdade, aquela que nos habilita a realizar nosso próprio eu individual, a ter fé nesse eu e na vida.

Um estudo sobre a liberdade

Um exame sobre a Liberdade.
Tereza Erthal
Certamente nós nos experimentamos, e aos outros, como livres, organizando os nossos sentimentos e os nossos negócios segundo esta noção. Todo comportamento voluntário decorre disso, assim também como o conceito de espontaneidade. Se pensamos em casar e ter filhos, ou em escolhas menores como erguer um braço, temos a sensação que depende de nós o que queremos fazer. Em todos os casos, temos a sensação de termos decidido livremente e que devemos aceitar a responsabilidade por estas escolhas e decisões. Elogios e culpas são distribuídos de acordo com elas. Contudo, tais experiências de liberdade estão em briga com argumentos que possamos usar para defendê-las. É bem difícil argumentar racionalmente sobre aquilo que apenas sabemos intuitivamente. Mas, no caso da liberdade e conseqüente responsabilidade, algum tipo de embasamento racional é importante, pelo menos para ordenar nossos relacionamentos sociais.
Relacionamentos sociais estão previstos em lei e estas leis, por sua vez, repousam em nossas melhores teses sobre o que é certo e o que é errado fazer. Se não podemos defender a tese de que somos livres para escolher e responsáveis pelos resultados, capazes de discriminar entre o certo e o errado, agindo conforme esta decisão, estamos sendo fortemente dominados por alguma teoria entrante.
Toda discussão sobre livre arbítrio do homem tem sido encoberta pelo aspecto natureza humana ou pela idéia do lugar da humanidade no Universo. A eficácia, ou não, do nosso querer, e a questão de se de fato temos uma vontade, não são tidas como decorrentes daquilo que somos enquanto seres humanos. No passado, tais discussões corroboravam com o determinismo, indicando que a liberdade era uma ilusão. Os gregos chamavam tal determinismo de destino. Viam-se como bonecos de deuses caprichosos, que determinavam as tramas de suas vidas. (“Que destino cruel trouxe-me a este dever sangrento?”, próprio de uma tragédia grega.) Igualmente, a tradição cristã, especialmente protestante, era convencida de que nossas ações eram prefixadas. Haveria um plano divino por trás de todo o cenário de ações.
“ É portanto fundamentalmente necessário e saudável que os cristãos saibam que Deus prevê, projeta e faz todas as coisa conforme Sua própria imutável, eterna e infalível vontade.”(Lutero, séc.VI)
Se formos honestos conosco, veremos que possuímos resquícios destas influências hoje. Um exemplo disso são frases como: “estava destinado a acontecer”; “acontecerá, se Deus quiser”; etc. A boa notícia é que estas noções de destino exercem pouco domínio racional sobre a mente moderna. Hoje a ciência nos diz sobre a causa das coisas, incluindo sobre o nosso comportamento. Na verdade, a ciência moderna minou nosso sentido de liberdade: pelo lugar que ela nos concede no Universo e pelo modelo dado para compreender nossa natureza humana. No universo morto de Newton, seres conscientes não tem papel para conter as forças cegas. A impotência humana faz nascer a fé cega, com perda da vontade (depressão e desespero). Nossa liberdade perde todo o sentido.
A negação da liberdade, decorrente da natureza impessoal e determinista da física clássica, reflete-se no determinismo histórico de Marx. Há um determinismo imposto de fora, por forças além do nosso controle.
Freud descobriu na psique humana leis e forças que espelham a física e a química de seu tempo.
“Se toda atividade mental é resultado de forças mentais inconscientes que são instintivas, biológicas e físicas em sua origem, então a psicologia humana poderia ser formulada em termos de forças interagentes que eram em princípio quantificáveis, sem necessidade de recorrer a nenhuma ação vital mental integrativa, e a psicologia se tornaria uma ciência natural como a física.” (Freud, em Rycroft; Psychoanalysis Observed,p.13)
Assim, a psique é escrava de forças inconscientes, pois todo ato decisório é uma ilusão e a consciência não tem função. Freud contribuiu para este tipo de pensamento, tanto na psiquiatria, quanto na psicoterapia, deixando uma marca formativa na mente popular.
As idéias de Freud e de Marx, de que nossa liberdade é refém do instinto ou da História, foram propagadas por sociólogos, psicólogos e estudiosos afins. Ora, se procuro definir minha individualidade em termos clássicos, vejo-me como um emaranhado de neurônios, mas nenhum deles pode ser responsabilizado por qualquer ação que venha a desenvolver. Na física clássica fica difícil se quer dizer a palavra “liberdade”. A complexidade da causalidade é tão gigantesca que nem conseguimos sondá-la; ela está sempre presente.
Mas, na nossa visão, é impossível definir o ser humano sem confrontar o significado da liberdade. Se atentarmos para o conteúdo de nossa mente consciente em qualquer momento, assistimos a um arranjo de vários pensamentos possíveis. Estas áreas de pensamento são mais acessíveis ao adormecermos ( ao entrarmos em contato conosco, depois de apagar o murmurinho do mundo, temos imagens do passado ou mesmo do presente, apontando coisas que temos que encarar), ou em estados de meditação, mas estão sempre presentes. Sem elas, não haveria base para fantasia e para imaginação. Cada ato de concentração é um ato de realização do pensamento. Quando focalizamos um pensamento, ele se torna a realidade clássica, ou figura, enquanto outros desaparecem no fundo, como sombra na noite.
Assim, cada ato de concentração expressa alguma forma de liberdade: nada determina sobre quais pensamentos possíveis iremos focalizar, contribuindo para a natureza indeterminada da escolha. Poderiam dizer que a escolha do possível seria determinada pelo alívio de uma situação e, por isso, não livre. Ledo engano. Por exemplo, se me vejo numa situação desconfortável, talvez me pegue pensando nela com a cabeça cheia de imagens sugerindo atos como gritar, quebrar o computador, parar de pensar nisso, etc. Seja qual for a saída, ninguém poderá dizer que a escolha se deu devido ao desconforto, uma vez que todas as opções aliviariam tal sensação.O desconforto pedia apenas uma escolha e esta, em si, foi livre.
Respondendo com bom senso a muitas questões, sendo uma criatura racional, tenho capacidade de analisar as situações e refletir sobre as suas consequências. Tanto minha liberdade quanto minha responsabilidade são vistas como provenientes de tal capacidade, e por isso negamos que os animais tenham livre arbítrio.Mas a liberdade é muito maior do que nossa fé no poder da razão! Temos o exemplo de quem quer parar de fumar: decide, invoca todos os pensamentos que demonstram quanto ruim é o ato para o organismo, mas logo depois o hábito, ou vício, vence a razão. Mas, num belo dia, paro de fumar, sem nenhuma exigência. Escolhi parar. Fiz minha escolha e agi de acordo. Por quê? Nossa lógica não faz escolhas! Poderíamos dizer o contrário: são as nossas escolhas que estão associadas a um conjunto de razões ligadas a estas escolhas, que darão origem à nossa lógica. Ao fazermos uma escolha, temos uma razão para esta escolha que a nossa lógica se utiliza para explicar a escolha. Estas explicações dizem algo a meu respeito, mas não determinam a escolha em si. Precedeu a todos os “porquês”. Foi realizada num momento de liberdade e, como Kierkegaard diria, num “salto de fé”. Tal escolha é de minha responsabilidade apenas e já traz em si um fardo: faz-nos responsáveis por escolhas sobre as quais não temos pleno controle consciente (numa linguagem sartriana, uma consciência de primeiro grau).
Mas nada pode controlar a minha liberdade? Sartre diria que Não: eu sou a minha liberdade! Para exercer o controle da liberdade, pesamos as probabilidades. A probabilidade que algo ocorra está associada à quantidade de energia exigida para fazê-la acontecer. Somos livres para fazer qualquer opção, mas ao fazermos, geralmente escolhemos o mais fácil. Embora a razão não determine a escolha feita, desempenha um bom papel, pois as razões especiais ligadas a qualquer conjunto de escolhas possíveis, influenciam a probabilidade de fazermos alguma escolha em especial. Então, a associação entre razão e escolha torna as escolhas corretas mais fáceis, mas não garante o resultado desejado.
O efeito de nosso estilo de vida, e de nosso histórico de escolhas passadas, também atua sobre o peso da probabilidade futura. Mas isso não significa determinismo, e sim influência. Geralmente, a “natureza” da nossa consciência leva-nos a fazer escolhas que exijam menos esforço e menos concentração. Isso é responsável pela criação de hábitos e imitações. O hábito é uma saída para os preguiçosos, com certeza. Contudo, o habitual também é necessário em nossas vidas. A habituação pode nos deixar livres para viver mais criativamente o que mais nos interessa. Mas somos sempre livres pra realizar escolhas que despendam até mais energia , assim como podemos ir contra as probabilidades.
O exercício da liberdade repousa no cerne do nosso significado enquanto indivíduos. O fardo da responsabilidade é da nossa natureza e nem adianta negá-la. É a nossa liberdade que permitirá a nossa criatividade, chave para que nós, seres humanos, estejamos no Universo.

Existencialismo e a medicação

Existencialismo e medição
Muitos alunos me perguntam como se configura a relação entre a psicoterapia e a medicação. Em primeiro lugar, precisamos deixar claro que nenhum psicólogo está apto para medicar. Este papel é próprio dos médicos, no caso psiquiatras ou neurologistas, que têm um estudo apropriado para isto. Nosso papel é de indicar um destes profissionais, conforme o caso, e estabelecer um diálogo com eles, aumentando a chance de sucesso do atendimento.
Mas quando fazer este tipo de encaminhamento?
Os medicamentos agem na conseqüência comportamental, enquanto a psicoterapia age sobre a relação de construção da doença. Um cliente com síndrome de ansiedade, por exemplo, necessita de um medicamento, caso este sintoma esteja acima do controle da pessoa, atrapalhando ao ponto de não mais conviver socialmente. A terapia vai atuar na forma como a ansiedade acontece e o que a dispara. Alguns falam que a psicoterapia ataca a causa do problema, mas este ponto se torna bem questionável na ótica existencial.
No Existencialismo, vemos, claramente, a diferença entre causa e motivo: enquanto a causa é a apreciação objetiva de uma situação, o que deu origem real ao problema em questão, o motivo é a apreensão subjetiva de uma causa,expressa pelos desejos, emoções, pensamentos que normalmente acompanham o ato. Trata-se de uma apreensão autoconsciente, um projeto inicial de si até um determinado fim. Apreende-se o mundo como causa. Posso apreender uma série de fatores, como a grande quantidade de trabalho, a preocupação excessiva, a fraca alimentação, etc, que são motivos, como causa para a minha fadiga. As causas somente terão significado quando inseridas no projeto de alguém: aparece em e através do projeto de uma ação.
“ Não é por ser livre que os motivos são ineficazes, mas porque eles são ineficazes é que eu sou livre. A consciência é sempre consciência de qualquer coisa e, por consequência, o motivo não pode aparecer senão como correlação de uma consciência de motivo, isto é, o motivo não está nunca na consciência, ele existe apenas pela consciência. E porque o motivo não pode surgir senão como aparição, é que ele se constitui como ineficaz; a sua transcendência está, por natureza, compreendida e incluída na consciência e, sendo assim, a consciência escapa-se-lhe, ao estabelecê-lo.” Jolivet, 1975.
Causa, motivo e fim são indissociáveis da consciência que se projeta até suas possibilidades e se define por elas. Embora possamos dizer que todo ato tenha um motivo, não podemos extrair daí que o motivo seja capaz de causar o ato. Dois eventos fortemente correlacionados não necessariamente estabelecem uma relação causal; estão apenas fortemente associados. Na verdade, o motivo, o ato e o fim são partes de uma mesma estrutura em que cada um objetiva os outros dois. No entanto, é o ato que será capaz de decidir o fim e os motivos, pois o ato é expressão de liberdade. Ao contrário do determinismo, que prega uma certa continuidade da existência, concebendo o motivo como fato psicológico capaz de gerar o ato, da mesma forma que a causa determina o efeito, o Existencialismo não considera causa e motivo como coisas. Ambos são vistos como tendo significado atribuído exclusivamente pela pessoa. Para um fenômeno ter causa é preciso que esta seja experienciada como tal. Este significado depende do projeto futuro. Assim, o indivíduo determina os significados através das ações pelas quais se projeta até seus fins. Sendo o projeto uma livre produção de um fim, e que lhe confere significado. Causa, motivo e fim formam uma unidade difícil de dissociar. Portanto, é bastante difícil dizer que algo seja a real causa de um problema pelo simples fato de que muitas outras variáveis entraram neste curso posteriormente e, muitas vezes, a primeira causa ficou secundária diante da força de alguma destas variáveis. Quando trabalhamos com os motivos, muitas questões se aclaram e uma compreensão maior se torna viável.
Esclarecido este ponto, entramos em contato com a classificação diagnóstica e o Existencialismo. O que seria uma doença mental? Para nós existencialistas, não existe uma teoria geral que seja capaz de explicar a patologia da conduta, pois isso iria contra os princípios filosóficos propostos, a saber, o de que cada indivíduo é uma pessoa concreta, única, livre e realizadora de si mesma; rebelde, portanto, a enquadramentos diagnósticos. Preocupados em ressaltar a dignidade existencial, repudiamos a classificação, já que fragmenta o homem. Estamos mais preocupados em “des-cobrir” o molde sobre o qual o cliente se criou do que lhe impor um padrão. A perspectiva do trabalho é descritiva, uma vez que somente se pode compreender qualquer desordem de conduta de um indivíduo enquanto tal a partir dele mesmo, isto é, tomando-o como unidade fundamental. Mas encarar os problemas como oriundos de conflitos, aspirações, enfim, angústias, decorrentes de necessidades existenciais, é ainda muito difícil de ser aceito. A conscientização de si mesmo não é algo fácil de ser atingido pelo cliente, uma vez que ocasiona uma enorme carga emocional. Quando o peso é grande, é mais fácil obter refúgio em divindades ou na expectativa de que algum destino se faz cumprir.
O problema da classificação psiquiátrica parece residir numa única premissa: existem comportamentos anormais que precisam ser categorizados em prol de um mérito moral. É como se o diagnóstico psiquiátrico definisse a identidade pessoal. Mas classificar algo ou pessoas é próprio da ciência, para obter controle sobre aquilo que é nomeado. Claro que a classificação facilita a linguagem entre profissionais, objetivando a linguagem, favorecendo análises estatísticas e certas previsões de comportamento. Entretanto, considerando que o comportamento humano é algo único, baseado na livre escolha, é um contra senso tentar encaixá-lo em algo pré-existente.
Existe certa lógica em considerar que, de um certo modo, somos um tanto “ insanos”. Basta comparar as nossas ações diárias, no que toca a seu significado, com as atividades de outros no mundo, que nos parecem, às vezes, por demais ridículas. Como se pode ser tão são diante de tanta insanidade? Óbvio que existem aqueles que têm um tipo específico de insanidade, e que por isso a sofrem de um modo diferente daquele experimentado por nós. Parece que eles têm o direito de viver uma existência humana, ainda que de uma perspectiva diferente da nossa. Assim, existe uma noção limitada de insanidade que se antagoniza com a noção de uma insanidade viável.
Não se trata de negar que existem diferentes modos de “ser-no-mundo”, mas o que se questiona é o propósito do ato classificatório que, muitas vezes, leva a uma forma desumana e impossível de lidar com os problemas existenciais do ser. O árbitro teórico é tão amplo e de tantas conseqüências que não é raro se verificar o desenvolvimento de doenças iatrogênicas. Além do mais, quando se fala em doença, tem-se como parâmetro a saúde; e determinar um conceito de saúde parece inútil, quando se tem imaginado a essência do homem como ser não acabado. (Jaspers, 1966)
Os clientes que normalmente visitam nossos consultórios são “normais “, com problemas existenciais, ou neuróticos, apresentando um conjunto de comportamentos aprendidos que serviram diante de uma situação de sufoco, mas que já caducaram. O cliente, neste caso, não se dá conta de que a sua utilidade expirou e continua dando as mesmas respostas a todas as situações ameaçadoras. A neurose é uma espécie de método de conduta desenvolvido para defender a própria existência. Obviamente, a noção da própria existência está distorcida, mas o comportamento resultante está coerente com esta imagem criada. Também os marcos diferenciais são muito difíceis de delimitar, pois cada indivíduo desenvolve uma dinâmica própria. Contudo, existem comportamentos que se mostram bem característicos, exatamente pelo exagero de suas manifestações.
O desajuste é o resultado de uma escolha que o indivíduo faz, produto de sua própria criação. A liberdade para escolher não necessariamente assegura que as escolhas sejam sábias. A desordem da conduta surge como resultado do conflito entre mudar-se (de ser) e a de manter-se inalterado (não ser). A ansiedade resultante faz nascer o desajuste, uma forma que o indivíduo escolheu para lidar com o peso da angústia. May nos diz que a neurose é o método que o indivíduo usa a fim de preservar o seu centro. Pra ele, neurose é uma adaptação, justamente aí que radica o seu “mal”.
Se a conscientização da liberdade, pelo próprio indivíduo, é o que dá significado à vida, todo o uso da neurose como forma de manipulação do meio é um resultado de uma perda do sentido da vida. A terapia pode dar conta deste aspecto, mas das conseqüentes ramificações sintomáticas, o profissional apropriado é o psiquiatra. Uma avaliação diagnóstica pode ser importante para diminuir sintomas, como a ansiedade ou a depressão, que um paciente vive. Uma vez suavizada a sintomatologia, o caminho fica mais aberto para os resultados terapêuticos.
Mas ainda têm os pacientes psicóticos, menos comuns nos consultórios de psicoterapia. Estes requerem um acompanhamento medicamentoso com mais freqüência. Costumo dizer que, nestes pacientes somos mais facilitadores e coadjuvantes do que profissionais principais. Nosso papel seria o de ajudar a socialização ou adaptação social.
Se a nossa preocupação é idiossincrática, nada mais importante do que captá-la para ajudar o cliente a se estruturar. Se a percepção do mundo do “neurótico” está distorcida a ponto de não estar vivendo bem com ele mesmo, o comportamento determinado pela sua percepção será alterado na medida em que se modifica. Um trabalho conjunto com o médico é super necessário, quando há a prescrição medicamentosa. O psiquiatra necessita saber como são os seus projetos, qual a forma de manipular os sintomas, a forma como escolhe lidar com o mundo… Embora tenha recursos para fazer uma boa avaliação, muitas coisas escapam à primeira vista. Trago um exemplo que pode vir a clarificar este ponto:
Fui procurada por uma mulher que vivia em depressão. Tinha acabado de ter um filho e, durante a gravidez não fez uso de nenhum medicamento pra assegurar a saúde do bebê. Estava em ponto de bala! Chorava muito e dizia que não havia se matado por causa do filho. Nada em sua vida estava fora do lugar, mas sentia como se nada fizesse sentido. Formada, não conseguia trabalhar por causa dos seus sintomas. À medida que fomos estreitando o relacionamento clínico, fui percebendo que a sua ansiedade era gigante e, por isso, nada começava, pois não conseguia concluir. Seu diagnóstico tinha sido de depressão, no que eu discordava. Entrei em contato com a psiquiatra e tivemos um ótimo diálogo. Na minha opinião, sentia que era mais um transtorno de ansiedade e que, no pico, resultava numa depressão forte. Sugeri que os remédios fossem dirigidos para a ansiedade, e ela concordou em experimentar. O que tinha demorado meses para melhorar, em um mês tivemos resultado favorável. Claro que a parte medicamentosa, dada pela psiquiatra, foi de suma importância, mas foi através do diálogo entre as partes interessadas que a cura se desenhou. A parceria é extremamente necessária.
Não posso acreditar que um tratamento psicoterápico resulte em sucesso se não houver um diálogo inteligente entre os médicos responsáveis pelo paciente. Este diálogo não precisa ser apenas com o psiquiatra. Tive uma experiência bem interessante:
Uma paciente foi-me indicada para fazer um diagnóstico (eu era professora de psicometria). Seu marido me disse que ela tinha tido surtos e achou melhor trazê-la do sul pra cá e se tratar. Ele era médico cardiologista e viu seus sintomas desta forma. Achou que poderia ser uma espécie de comportamento anti-social também, pois depois que emagreceu muitos quilos, passou a se exibir na pequena cidade, com mini saias, pegando garupas de garotões, etc. Fiz várias entrevistas e apliquei testes que pudessem elucidar tal mistério. Em nenhum momento encontrei qualquer comportamento que indicasse isso. Continuei pesquisando. Encaminhei-a a um amigo psiquiatra pra fazer uma avaliação. Nada encontrou, a não ser comportamentos neuróticos. Pesquisando encontrei que ela havia tomado remédios para a tireóide para poder emagrecer, atingindo a hipófise. O teor do remédio era alto e, como li, os sintomas podiam ser semelhantes a uma crise psicótica. Além do mais, ela estava se comportando como uma adolescente que queria recuperar o tempo perdido ( havia perdido 32 quilos em dois meses!). Em diálogo com o endocrinologista e com o psiquiatra amigo, retiramos os remédios desnecessários e uma psicoterapia teve início, pra fazer a adaptação a esta nova imagem. Apenas um ansiolítico e muitas conversas a fizeram restaurar o equilíbrio.
Do que foi exposto, fica claro que a medicação tem sua importância, que somente pode ser administrada por um médico especialista e que o terapeuta precisa trabalhar em conjunto com o médico que assiste o paciente ( seja ele psiquiatra, neurologista, endocrinologista, ou de outra natureza). Chama-se a isso de abordagem interdisciplinar, super apropriada quando se pensa no paciente como uma pessoa. Desta forma, podemos trabalhar a pessoa como um todo e cada profissional envolvido é capaz de dar a sua contribuição.
Conclusão:
Terapias que buscam a compreensão do indivíduo apoiadas simplesmente no puro arbítrio teórico, fazem um entendimento distorcido, reforçando apenas a sua verdade. A rigidez de seus dogmas implica em rigidez de atitudes e o resultado é a perda da compreensão real do cliente. Um estudo criterioso sobre quem está diante de nós faz-nos contactar com os profissionais que também trabalham o paciente, em algum grau. Pode ser que seja necessário um encaminhamento para amenizar os sintomas que atrapalham a visão da realidade. Mas não basta apenas esta indicação. É necessário que trabalhem juntos em benefício do cliente.

O Amor é a chave.

A ansiedade é uma das características mais habituais da conduta contemporânea. O competitivismo da sobrevivência e os fatores constringentes de uma sociedade eticamente egoísta, impulsionam a insegurança no mundo emocional das pessoas.A disputa de cargos e funções bem remuneradas, a constante aquisição de recursos, a prepotência de governos inescrupulosos, anúncios ameaçadores de doenças ou catástrofes da natureza prenunciando tragédias iminentes, a catalogação de crimes e violências são responsáveis, na maior parte das vezes, pelo medo que invade todos os meios sociais. Estas constantes ameaças conduzem a permanentes medos que defluem as incertezas da vida.
A constante preocupação de parecer vencedor, de responder de forma semelhante aos demais, de ser admirado, desumanizou o ser humano, que , tornando-se um elemento do grupo social, passou a não ter identidade ou individualidade.
Sabemos que a ansiedade tem manifestações e limites naturais, perfeitamente aceitáveis. Contudo, quando se extrapola para os distúrbios respiratórios, sudorese, perturbações gástricas, etc, o clima de ansiedade caminha para a somatização física em graves danos para a vida.
O maior desafio para o homem é o autoconhecimento. Identificar a sua realidade emocional, suas necessidades, suas legítimas aspirações, são fatores importantes a considerar, nem sempre fácil de atingir. O aprofundamento de descobertas íntimas vai alterando a escala de valores e levando a novas significações para a sua luta, contribuindo para a autoconfiança.
A ansiedade trabalha contra a estabilidade do corpo e da emoção. A verdadeira finalidade desta existência corpórea seria uma vivência salutar da oportunidade orgânica, sem o apego mórbido ao corpo, nem o medo de perdê-lo. Mas apegado aos conflitos da competição humana, deixando-se vencer pela acomodação, há um desvio desta finalidade, que se resume na aplicação do tempo para a aquisição dos recursos eternos propiciadores da beleza, paz e perfeição.
O pandemônio gerado pelo excesso de tecnologia e conforto material das classes abastadas, com absoluta indiferença pela humanidade dos guetos e das favelas, em promiscuidade assustadora, revela a falência da cultura e da ética no imediatismo materialista. O abuso da falsa cultura desnaturada, que pretendeu solucionar os problemas humanos, resultou na correria alucinada para lugar nenhum e pela conquista de coisas mortas, incapazes de sanar a ansiedade.
Propalando-se que as conquistas morais fazem parte das instituições vencidas- matrimônio, família, lar- os loucos creem que aplicam, na velha doença das proibições passadas, uma terapêutica ideal. A sociedade atual sofre a terapia desordenada que usou na enfermidade antiga do homem, que ora se revela mais debilitado que antes.
O que fazer? São válidas as lições sobre amor, solidariedade fraternal, compaixão que geram pensamentos otimistas e atitudes mais humanas neste mundo enlouquecido pela ganância. Tais atitudes mais compreensivas, não somente conduzem a uma forma de relação mais tranquila, sem disputas conflitantes do passado ou acomodações coletivistas do presente, como revertem o olhar para a observação e conhecimento de si. Esta aprendizagem favorece uma relação harmônica com o Universo, pois trata-se de uma atitude natural, resgatada neste modus operandi.
É preciso deixar claro que existem dois dias plenos de ansiedade: o ontem e o amanhã. Não existe a menor possibilidade de vivê-la no presente, pois não há necessidade de antecipar ou relembrar situações que a expressam firmemente.
Qualquer comportamento que coage, reprime, viola é adversário da liberdade.A sociedade estabelece que a liberdade é o direito de fazer o que a cada qual apraz, sem dar-se conta de que essa liberação da vontade, termina por interditar o direito dos outros, fomentando as lutas individuais, dos que se sentem impedidos nas violências de grupos e classes, cujos direitos encontram-se dilapidados. Se cada um agir conforme achar melhor, considerando-se liberado, esta atitude trabalha em favor da anarquia, responsável por desmandos sem limites. Aliás, em nome da liberdade, atuam desonestamente os vendedores de paixões ignóbeis, vendendo mercadorias de prazer e loucura.
A liberdade é um direito que se consolida, na razão direta em que o homem se autodescobre e se conscientiza, podendo identificar os próprios valores, que deve aplicar respeitando a natureza e tudo o que nela existe. A agressão ecológica demonstra que o homem, em nome da sua liberdade, destrói, mutila, mata e se mata, por fim, por não saber usá-la como deveria.
nenhuma pressão de fora pode levar à falta de liberdade, quando se consegue ser lúcido e responsável interiormente, portanto, livre. Nela a ansiedade escapa. Diria que a liberdade é uma atitude perante a vida e, assim, só há liberdade quando se ama conscientemente. E no estado do amor, a ansiedade perde a cor.
Concluo, que para a ansiedade constar de níveis sadios, a liberdade é imprescindível e o Amor é a chave para abrir esta porta.

Perspectiva Humanista do Amor
Tereza Erthal

Numa visão humanista, podemos admitir que o amor é uma escolha e um processo de transformação constante. O objetivo, como ser, é o amor universal, uma vez que o amor não pode ser excludente. Seu crescimento implica em sua abrangência. O amor por uma pessoa é capaz de despertar o amor por toda a humanidade. Mas, por outro lado, pode não passar de um mimo narcísico para os amantes. Em face disso, a filosofia medieval interpretava o sentido de totalidade amorosa como Deus. Dizia que amar alguém é amar uma pessoa em Deus. Fazia-se uma distinção entre o amor que se encerra em uma criatura e o amor como experiência totalizante- amar alguém como um elo inclusivo com todos os seres:
“ O amor a uma pessoa difere do amor a uma simples coisa. Amamos as coisas em atenção à nossa própria pessoa, a cujo serviço elas perdem a sua existência, como se sucede com uma iguaria que se ama e se consome…O amor puro, sincero e generoso a um ser pessoal, ao contrário, visa a pessoa como tal e a si mesma. O que não quer dizer que a caridade ( o amor de Deus) não atenda também ao seu próprio bem.
Amar sinceramente a outrem significa amá-lo como a nós mesmos, o que só é possível num plano de igualdade…”(Boehner, P. e Gilson,E. História da filosofia cristã.Ed. Vozes, 1991, p.189)
Se quisermos dizer que o amor enquanto relação amorosa é um crescimento de mãos dadas, precisamos completar tal sentença dizendo que isso pode ocorrer, mas a partir, igualmente, do desenvolvimento concomitante das singularidades. Duas pessoas não vão crescer da mesma forma e ao mesmo tempo. É necessário aceitar que cada uma delas está se comportando como pode naquele momento. É a sua jornada pessoal. Pessoa é um ser singular e um ser de relações, ao mesmo tempo. As relações são tecidas com o outro, com o mundo, com o meio ambiente, e, não raras vezes, com o que se intenciona com uma dimensão transpessoal, se a pessoa desenvolve uma experiência religiosa. Mas também o ser das relações remete à autorrelação, à relação consigo mesmo, ao diálogo da intuição com o pensar, do pensar com o sentir, do sentir com o desejo,… são como veias que correm em várias direções, que se integram como uma “gestalt”.
Na verdade, viver no amor é o maior desafio da vida. O amor não pode deixar de atuar até mesmo na ausência de um objeto, visando o distante, tornando-se uma espécie de nostalgia ou saudade do amor.
O amor precisa de liberdade para crescer- não de arbítrio, mas da responsabilidade implicada em cada escolha que envolve não só o eu como o outro, todo o tempo. Justamente por isso, não existe um amor certo como modelo único, mas muitas formas de amar. Através do autoconhecimento e do conhecimento do outro, o que não é feito por livros ou manuais de educação sentimental, mas forjadas pelas vias da própria existência, de uma afinação sensível que envolve EU-TU, descobre-se que o amor é algo construído na intersubjetividade e que na experiência amorosa há uma equalização do “ama ao próximo como a ti mesmo”, ou, o que dá no mesmo, amar a si mesmo é a condição de ´possibilidade de um amor ao outro.
“ Em suma, para termos amor próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor- a negação do status de objeto digno de amor- alimenta a auto aversão.O amor próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros.” ( Bauman,p.100)
Estamos em algum lugar entre o conhecimento de si e a abertura para a inclusão do outro, entre amor ao outro e a autoestima. Na verdade, a existência implica ambos os pólos, sem solução de continuidade; por isso a formulação interessante de Buber, Eu-Tu, ser bastante boa pra ser incluída nesta relação. O amor pode ser considerado uma atitude que propõe a cada pessoa um salto qualitativo, em que não mais se vê enredada por uma lógica utilitária, em que ambos se consomem mutuamente, numa roda de embates regados pelo desejo de posse, cujo resultado é o visível tédio existencial. Desejo é amor da personalidade; conhecimento é amor pela verdade.
O amor é uma responsabilidade que temos para com o outro e é nisso que consiste a igualdade daqueles que amam. Não se trata de anulação das diferenças, mas uma afirmação de alteridade. Há um trecho da peça de Sartre, As Moscas, bastante oportuna para o que estou relatando. Aqui está a resposta de Orestes à Electra ( quando a irmã estima que o coração de Orestes é sem ódio), que dá a pensar, pois acreditamos que atinge algo de originário, lançando ao mesmo tempo luz e sombra no mistério que ronda a gênese do amor. Respondeu o herói: “Dizes bem: Sem ódio; e sem amor. Tu, eu teria podido amar. Teria podido…Mas quê? Para amar, para odiar, é preciso se dar.”

PESSOAS-APARÊNCIA: O MEDO DE SER
Tereza Erthal

Nos dias atuais, somos freqüentados por uma carência de uma consciência idealista, isto é, aquela que predomina sobre os impulsos egoístas que andam de mãos dadas com o imediatismo. “Se ganho o meu, dane-se o outro.”; “Se posso me livrar pagando ao guarda, só desta vez, é menos trabalho e não vou fazer mais.”; expressam como o imediato entrou e se apossou de todos. Como é difícil realizar a liberdade desta forma! É necessário um adequado conhecimento interior do homem.
Distraído com o mundo fenomênico, este homem se desconhece e ignora as próprias reações emocionais, sempre imprevisíveis, e quando os problemas o visitam, responde alternadamente com violência ou depressão. Não consegue controlar-se frente às barreiras, e o anseio de ser livre, transforma-se em conquista vazia.
A liberdade não é conseguida de um momento para o outro; barreiras são necessárias, pois a liberdade é justamente a ultrapassagem destes obstáculos. Também não é possível dizer que a herdamos de nossos pais. Esta é uma conquista lenta, de cada um. Tem início com a escolha de si próprio. Aos poucos vai se aventurando a opções mais audaciosas, inclusive “guiando” aqueles mais perdidos, simplesmente com as suas atitudes. Pouco a pouco, as aparências sociais vão sendo descartadas dando lugar à legítima identidade e o homem se torna o que realmente é.
Muitos, contudo, ficam empacados no medo de serem descobertos em suas paixões exclusivistas, seus medos freqüentes, etc. A coragem é confundida com a impulsividade e a força com o poder, justamente porque vivem sem liberdade e debocham dos homens livres. Mas é na consciência profunda que está inserida a verdadeira liberdade, alcançada pelo mergulho no ser, propiciador de autoconhecimento.
Na verdade, o homem é livre e nasceu pra exercer e preservar este estado. Podemos dizer que não existe limite para a conquista desta liberdade, embora existam os que se recusam a se apoderar dela e preferem desistir de viver. A anarquia se disfarça em liberdade, demonstrando a violência ou a conformidade, abafando o relacionamento saudável entre as pessoas. Os verdadeiros sentimentos são camuflados para que a boa imagem surja nesta competição frenética. Vazios, sem ideais e sem consciência ética, ficam presos a desejos que jamais se satisfazem.
É preciso reverter todo este sistema injusto que desgasta o homem por simplesmente valorizá-lo pelo que tem e não pelo que de fato é. No atual sistema, adquire-se para acompanhar a moda, e a ansiedade para ser bem aceito socialmente aumenta. Cobra-se estar bem informado, conhecendo vários temas sem a menor profundidade, transtornando seu equilíbrio emocional, originando uma desestruturação pessoal.
Estamos sim na época de pessoas-aparência: quase todos num contexto confuso e sem liberdade, sem rumo e desmotivados. Ocupados com as suas conquistas externas, desconhecem, e temem, a verticalidade da interiorização realmente libertadora. Desistindo de reagir, desenvolve fobias, atormentando-os. É aí que a liberdade perde o significado externo, uma espécie de prisão sem paredes. Até mesmo os sucessos profissionais, ou familiares, não conseguem reduzir o desequilíbrio. Não há finalidade que justifique a consecução das metas.
Estados fóbicos desgastam e levam à depressão profunda. Generalizando este estado, pouco a pouco surge a fobia social, e com ela a pessoa desativa os seus convívios sociais, retraindo-se mais. A ansiedade foge ao controle, tornando-se patológica. A fobia social o incapacita a realizar simples tarefas: assinar um cheque diante de alguém, comer em um restaurante, ou mesmo apenas ir até a esquina de casa. Sempre achando que está sobre severa observação dos demais, passa a abominar a presença do outro. A tendência natural é fugir de tudo e de todos, tendo a ansiedade e o medo como justificativas.
Contudo, a vida de relação com os demais é essencial para o progresso. Como formou uma imagem inferiorizada, incapacitada de si, um círculo vicioso se forma. Ausente a segurança afetiva, vê no amigo o possível inimigo de amanhã. Mas mantém a farsa de uma conduta artificial na qual se apresenta muito bem, aparentemente capazes de enfrentar riscos. O abismo entre o que demonstram e o que são realmente, gera o pavor de serem vencidos, desconsiderados, o que justifica o comportamento de fuga constante.
O homem cava o seu próprio abismo quando se submete as ilusões; conspirando sobre ele próprio, torna esta geração do medo, uma sociedade sem destino. A saída é a troca de olhar: olhar pra dentro de si, buscando aprender a se ver sem os julgamentos externos e distorcidos de uma sociedade insana. Descobrindo que é o senhor de seu destino e que pode traçá-lo pouco a pouco, fiel ao que realmente sente, vai construindo uma auto- estima saudável. A liberdade volta a ser possível, um direito de todos nós!

Da queda ao vôo próprio.

de Tereza Erthal

Era uma menina livre, sem barreiras mentais ou emocionais. Vivia de bem com a vida, acreditando que todos sentiam o mesmo que ela. Muito espontânea, se lançava ao mundo, sem qualquer resquício de medo. Este é o retrato de Tininha, uma menina linda, esperta e vibrante. Mas existia um problema: o mundo!

Esta é a história deste pequeno ser que, quando se deu conta do mundo em que caiu, começou a perder a sua liberdade.

“Tininha, leve sua irmã até o carro!”
“Mas pai, ela é maior e mais velha que eu, por que preciso cuidar dela sempre?”
“Porque eu estou mandando!”

Este é um exemplo de um diálogo com o pai, um homem autoritário e não muito afetivo. A mãe parecia ser mais amiga e afetiva, mas precisava se ocupar muito com as suas tarefas diárias, não sobrando tempo pra apreciar o mundo mágico de Tininha, afinal, era perda de tempo.

“Mãe, olhe que dia lindo e ensolarado! Venha pegar um sol no rosto e ver os pássaros cantando!”
“ Tininha, você não está vendo que estou ocupada fazendo o almoço? Não tenho tempo pra ver passarinhos! Ainda tenho que ir ao banco, fazer compras, etc.Ufa! Meu dia está cheio de obrigações e você vem com essa história de dia ensolarado! Assiste você a este espetáculo enquanto é criança e pode!”, dizia a mãe, cheia de tarefas e compromissos que a tornavam uma pessoa amarga.
Tininha a tudo questionava, mas seu critério era o que sentia no peito, isto é, dizia que era um pulsar que sempre apontava a direção a seguir. Costumava agir permitindo que tudo pudesse fluir sem a desastrosa interferência da sua mente, embora não soubesse ao certo como descrever isso. Evidentemente, ouvia todo tipo de piada por isso, mas era um critério infalível! Tinha uma forma fácil de se relacionar com as pessoas e se lançava no mundo, sem ressalvas. Pode-se dizer que era feliz, mas isso iria durar pouco, pois tudo que é ignorado, mais cedo ou mais tarde, morre, desaparece.
As crianças funcionam através da essência, ou pureza, enquanto não tem uma personalidade formada. Tal essência apresenta-se inoperante no adulto, que nem se apercebe disso. Sendo puras, confiam plenamente na fluidez que as conduz, sem tentar entender, já que todas as ações mentais surgem depois com a “lógica” dos adultos.
Na escola, Tininha sofreu todos os tipos de pressão por ser muito espontânea. Castigos, suspensões e bilhetinhos pros pais, eram comuns, embora ela fosse uma aluna exemplar, do ponto de vista acadêmico. Era por demais inclusiva e sempre dividia tudo o que tinha, não evitando dar tudo o que tivesse, se necessário fosse. Vivia a fantasia de um dia criar uma cidadezinha capaz de abrigar a todos aqueles que vissem a vida como ela. Claro que isso era devido ao fato de Tininha nunca ter se sentido incluída em nada, por ninguém. Estranhava o fato de que as pessoas que mais ajudava, eram aquelas que logo a seguir lhe traíam. Não conseguia entender (neste estágio da vida, ela já usava mais a mente) o que acontecia. Como uma pessoa pede ajuda e, depois de recebê-la, ataca quem lhe deu a mão? Embora questionasse, não entrava em embates, apenas vivenciava, pois, de alguma forma, sabia que quanto mais combatia, mais estimulava o fato.
Tininha assim caminhava: questionando tudo e, agora, também a si mesma. Se todos a apontavam como estranha e diferente, e a faziam pagar um enorme preço pra ser aceita, sentia-se sem valor e, consequentemente, começou a mudar. Tornou-se, com o tempo, alguém apegada, crítica, insegura e com dificuldades intelectuais. O medo se apossou deste ser, como uma consequência das crenças e da ignorância de si. Encarnou o papel oposto ao que viera experienciar.
Na sua fase adolescente, e já cheia de papéis aprendidos pela vida, Tininha começou a se lançar nas relações afetivas. Os meninos a disputavam, mas ela nem sequer percebia que era admirada. As amigas, embora soubessem deste lado atrativo de Tininha, não a alarmavam para não terem que entrar na disputa com ela. Ao contrário, diziam que os meninos não a olhavam e assim garantiam algum olhar pra si mesmas. Com isto, Tininha foi perdendo o contato com a sua imagem corporal, com a sua capacidade de atrair pessoas, mas, acima de tudo, com a fé em si mesma. Quem pede amor, não recebe ou tem amor; é preciso sê-lo! Mas Tininha não se lembrava mais disso!
Tininha era filha caçula, mas suas responsabilidades a colocavam na posição da mais velha das irmãs. Sempre muito estudiosa e responsável com as suas coisas e pessoas, era-lhe cobrado um comportamento protetor para com a irmã que, por sua vez, exibia uma conduta passiva e despreparada com a vida. Sempre achava que sua irmã deveria ser uma boa amiga com quem pudesse dividir tudo. Tentou fazer algumas amigas de irmãs, mas sempre “apanhava” a seguir. Foi criando um autoconceito diminuído e se lançava apenas aos estudos, com confiança e amor. Escrevia solitariamente, porém, nestes instantes, era feliz. Sua mãe demonstrava um certo ciúme da admiração que seu pai nutria, silenciosamente, por ela e aí passava a proteger a outra filha (ou a si mesma). Uma espécie de alinhamento com uma pessoa considerada “ normal” e compatível com as suas características.
Tininha teve muitos namorados, nenhum excedendo o tempo de dois meses. Nada percebia nisso, mas desenvolveu uma barreira protetora que a impedia de se envolver muito e, assim, abandonava antes que fosse abandonada. Exibiu quantidades; esqueceu a qualidade!
Estudiosa do jeito que era, não teve dificuldade em adquirir uma vaga em uma universidade importante na sua cidade. Os estudos sempre foram o seu grande trunfo e uma espécie de porta para a liberdade, segundo ela. Era ansiosa para descobrir o mundo e queria aprender tudo o que pudesse alcançar. Em tudo o que se metia, deixava a sua própria marca, como se quisesse se convencer de que era alguém importante também. Ledo engano! Tininha nunca se convencia e precisava fazer cada vez mais. Óbvio que este comportamento a ajudou de muitas formas, mas a afastou de sua essência linda e espontânea. Não era mais aquela menina feliz e livre, mas uma mocinha insegura, carente e medrosa. Sua coragem não ultrapassava o mundo inserido nos livros!
Formou-se com louvor e já começou bem a sua profissão. Escolheu cursar Pedagogia para trabalhar com crianças carentes e, mais tarde, com crianças superdotadas, incompreendidas pelos demais. Foi aí que começou uma nova fase. Mas precisa ser dito que, também aí, iniciaram suas buscas pela espiritualidade. Sabia separar a psicologia da religiosidade, mas não sabia usá-las para alcançar o verdadeiro conhecimento de si mesma. Buscava muito! Acreditava que um dia encontraria uma boa explicação pra tudo o que vivera e uma saída para todos os seus sofrimentos. E já que a Pedagogia lhe trouxe algo, talvez a espiritualidade trouxesse o resto, afinal era o que pregavam. Arrumou mais uma expectativa, sem ter se dado conta disso.
Sentia-se muito só e queria encontrar seu príncipe. Isto mesmo, era um príncipe que imaginava! Alguém que lhe retiraria da prisão onde se encontrava. Muito exigente, nenhum candidato parecia preencher seus requisitos e o resultado era a frustração.Tinha intenções, projetadas no mundo, mas nunca conseguia realizá-las, de fato. Rodou por todas as religiões, conheceu mestres, fez iniciações, muitos cursos e só o que conseguia era se arruinar ainda mais. Estava de mal com deus e decidiu abandoná-lo e a tudo que a ele se relacionava. Voltou-se pro trabalho mais fortemente e fez mais uma marca: tornou-se a maior especialista no assunto que estudava. Era chamada para palestras no seu país, e fora dele, com muita frequência. Mas o vazio era grande e toda esta plateia, que lhe admirava, não era capaz de lhe trazer conforto, ou alegria.
Depois de muito buscar, desiludida com a vida que escolhera viver, decidiu mudar tudo: de trabalho, de cidade, de país. Sabia que para o novo surgir, o velho tinha que morrer! Foi encontrar a sua melhor amiga dos últimos tempos. Foi um encontro feliz, embora assustador. Aquela menina destemida e desbravadora já não habitava mais aquele corpinho mais velho e condicionado. Muitas crenças se formaram e bloqueavam a verdadeira visão que poderia ter de si.
Sua amiga Nina lhe apresentou uns autores diferentes que estudava, filósofos e psicólogos existenciais, que traziam conteúdos interessantes. Fazia o confronto com o que a pessoa fazia de si mesma. Ensinava a liberdade de ser e as responsabilidades de suas escolhas. Falava de auto estima, da angústia de lidar com as nossas mazelas, mas necessária ao crescimento. Era algo muito assustador e, ao mesmo tempo, verdadeiro. Por que verdadeiro pra ela? Porque resgatou aquele “pulsar” no peito, que agora sabia que era vibração. Tudo começou a vibrar e sabia que era a escolha certa a fazer, mas e o medo? Não apenas devorou tudo o que podia, como foi procurar um dos autores para desenvolver o processo terapêutico. Entrou em contato com as suas crenças: familiar, educacional, profissão, religião, política, tradições, dualidades…Pra uma menina que se conheceu livre, entrar em contato com esta realidade aprisionante a abateu. Ler autores mostrando o que distorcemos e porque o fazemos, era maravilhoso,mas difícil de encarar. A terapia a ajudaria nesta tarefa. Tinha se aguarrado à espiritualidade como resposta externa à tudo, e agora via que era mais uma ilusão que semearam dentro dela. A constatação de que fora livre e que deixou de ser devido a tudo a que foi submetida, a fazia viver na sofreguidão. A boa nova era que tal liberdade podia ser resgatada e estava ansiosa por isso.Na continuidade das leituras, descobriu que, apesar da dor, era necessário encarar todas as suas construções. Ainda sem acreditar muito em si mesma, decidiu mergulhar. Sentia-se aceita incondicionalmente pela sua terapeuta e decidiu arriscar.
Geralmente, o medo de voar, a insegurança de dar um passo para a sua liberdade, a dúvida se a própria autonomia é possível e a fará feliz, surgem com frequência nos pensamentos. Mas é preciso experimentar e não apenas intencionar!
Um desconforto insuportável lhe visitava sempre. Vômitos, dores no corpo, fortes dores intestinais eram alguns dos sintomas mais frequentes, de quem estava visitando áreas antes ocultas pela má fé que exercia sobre si.

“Desordem espaço temporal, desinteresse externo, muito silêncio. Meu ouvido apita e ouço a vibração do meu peito. Nestes momentos, nenhum pensamento me invade ou patina na minha cabeça. É muito bom porque vivo instantes de paz. Será que esta é a porta pela qual preciso entrar e me estabelecer?” comentou ela com seu psicoterapeuta.

Tudo isso se apresentou a ela porque se deu conta de que aprendera a viver com o olhar pra fora de si, buscando conhecimento e verdade de outros, ou outra forma de preenchimento do vazio, que sentia desde menina. Viu que para olhar na direção certa, tinha que se auto observar bem, isto é, registrar tudo, sem críticas ou julgamentos. Experimentou! Foi aos poucos permitindo que sua vida lhe levasse e isso se deu porque ficou consciente do seu auto funcionamento. O olhar de antes estava fora dela, se perdendo nas preocupações deste mundo. Acumulou tantas crenças que já não sabia mais quem era.
Tomar consciência de todas as crenças que adotou ao longo da sua vida não era difícil; difícil era olhar pra elas sem qualquer “pré-conceito”. Ter percepção sobre qualquer coisa não significa que esta coisa mude; é preciso tomar consciência plena e experienciar. Tininha foi aprendendo que tinha que se comprometer com a prática, ou seja, transformando-a em seu hábito diário. Na verdade, aquele que se permite voar, reconhece a sua realidade e segue a fluidez do instante. Contempla e curte a viagem da vida. Esta era a grande aprendizagem desta menina grande.

“ Na profunda observação de mim mesma, percebo que todo o fenômeno que surge se desintegra ao ser observado. Nada é necessário fazer, a não ser experienciar. Enxerga-se a partir de dentro da experiência, onde o pensamento é transcendido e perde o poder de conduzir. E neste momento, tudo se encaixa. Esta tem sido a minha mudança de olhar sobre tudo, especialmente sobre a minha pessoa.”, expressou em uma de suas sessões.

O processo de desconstrução havia começado e Tininha, ainda que com um bom conhecimento do ser humano, pelo seu trabalho e estudo, não podia se dar conta de que as crenças aderem como máscaras no rosto e, ao serem retiradas, a face sangra e dói. Sangrou! Temeu e tremeu! mas não deixou de se auto observar. Era uma mudança radical: de mental ou racional, tão valorizado antes, precisou aprender a ser “coração”. Não era preciso mais algum conceito mental pra viver tudo o que observava, mas apenas experienciar. Conseguiu resgatar a sua espontaneidade já neste momento. A consequência disso foi descobrir que viver podia ser tão fácil, pois era conduzida pelo seu centro de comando, o coração, abafado pelas tantas crenças que se deixara levar. Este processo era uma espécie de constatação. Dizia pra si mesma, e pra sua amiga, que voava, que era conduzida e que aprendera, finalmente, a viver apenas no Agora.
Tininha foi sendo “levada”, cada vez mais, e nenhuma questão lhe invadia. De repente, percebeu que todas as respostas estavam dentro dela. Quando a espontaneidade é permitida, todas as comprovações e estabelecimentos de sua graça se apresentam. Quem tenta entender e identificar alguma coisa, não tem a chance de viver a graça e o êxtase. Sua forma de viver, anteriormente, já não fazia mais sentido. Aliás, nada fazia mais sentido a não ser olhar pra dentro de si mesma e experienciar o que tivesse que viver.
Discutia estes assuntos cada vez mais e foi mergulhando, mergulhando, até que sentiu que uma clareza, absurda de tão clara, lhe pertencia, de vez em quando. Sabia que se continuasse o seu processo, viveria cada vez mais de forma límpida e isso era fantástico.
Todas as questões anteriores perderam a luz. É que quando se retira o olhar, elas simplesmente morrem. O que aprendeu foi que estava na direção certa e este era o seu objetivo de vida. Namorar? Príncipes? Rejeição? Medo? Nada disso lhe pertencia mais, pois o que mais queria era deixar a vida lhe mostrar o caminho. E exatamente por isso, o amor a ela se apresentou. O amor vivido na unidade!
O que aconteceu à Tininha? Modificou o seu olhar! Resgatou a sua essência! Toda a sua espontaneidade e destemor, que pertencem a todos, estavam impedidos de vir à tona em função de conceitos ou crenças que o mundo lhe apresentou. É preciso coragem para desconstruir tudo e deixar reinar a verdadeira natureza! Isso ela fez e hoje vive plena, voando e aprendendo, apesar do mundo.
Este ser, como muitos neste mundo, que havia perdido a liberdade essencial, descobriu um método que lhe fez reencontrar sua verdade, sua vibração. Não é mais um caminho com retorno, ao contrário, não tem volta, não se quer voltar!!! Dizia que tinha asas e que nada mais a impedia de voar. Tininha resgatou a sua liberdade e descobriu que apenas sendo livre podia ser feliz novamente.
Enquanto não experimentamos a troca de olhar sobre a nossa própria realidade, nos mantemos na ilusão de que somos livres. Para ter a liberdade, é preciso sê-la!! A Paz surge quando calamos a nossa personalidade e não somos mais reféns do seu sistema de crenças. Simplesmente permitindo que o centro de autonomia a tudo processe. Estamos tão imersos na ignorância sobre nós mesmos que nem percebemos o quanto somos manipulados. Transformamo-nos em verdadeiras marionetes! Seguindo idéias e pessoas, mais nos afastamos de quem realmente somos. Mas podemos mudar isso, como o fez Tininha, e assegurarmos o direito à nossa liberdade.
Geralmente, quando olhamos no espelho o que vemos? Vemos as nossas crenças, as nossas máscaras, o monstro que nos tornamos. Agimos neste mundo por conveniências, pois esta é a distorção. A inclusão que traz a unidade é perdida e os papéis representados neste mundo se tornam os nossos personagens diários. A zona de conforto promovida pela personalidade, nos faz ignorar o nosso real estado. Ou nos enganamos diariamente, ou focamos na nossa mudança de olhar! E este é um trabalho pessoal; ninguém pode fazê-lo por nós!
O que eu posso dizer de tudo isso? Que também aprendi muito com Tininha e a maior das aprendizagens é que toda transformação é possível, se nos propomos a ousar. Somos seres livres e precisamos assumir esta verdade!!!Desejo a vocês, uma excelente transformação!
Feliz Ano Novo!!!